RESUMO DO LIVRO: SENNETT, Richard, A cultura do novo capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 2006. P.11-79; 165-180

Por Holbein Menezes

1- INTRODUÇÃO

Com o intuito de contextualizar sua visão sobre a cultura do novo capitalismo, o autor nos leva a uma breve revisão histórica sobre o sistema econômico ocidental, seus pilares conceituais e sua evolução na base do tempo, fundamentando-se nos pensadores tradicionais que analisaram e o conceituaram.

Esta brevíssima, mas, importante excursão histórica, nos leva a perceber como as instituições que sustentaram a sociedade capitalista no inicio do século XX estão em transformação. As diferenças entre os novos e os velhos paradigmas se contrastam ao redor do conceito de burocracia, na forma concebida por Max Weber, como elemento central da sociedade capitalista.

Neste contexto maior, o autor analisa as mudanças nos modos de conceber a cultura, esta, num sentido antes antropológico do que artístico. Modificações que teriam suas origens na crise das instituições e no crescimento das desigualdades econômicas. Sob este aspecto, em que as instituições se fragmentam e as condições sociais se tornam instáveis, emerge um conjunto de desafios às subjetividades humanas.

O primeiro dos desafios diz respeito ao tempo, ou a uma relação de curto prazo. Quando as mudanças permanentes inviabilizam planejamentos de longo prazo, “o indivíduo pode ser obrigado a improvisar a narrativa de sua própria vida, e mesmo a se virar sem um sentimento constante de si mesmo”.

O segundo desafio diz respeito ao talento, ou a como desenvolver suas capacidades potenciais em uma cultura onde novas capacitações são exigidas a cada momento, onde “os trabalhadores precisam atualmente se reciclar a cada período de oito a doze anos”. Em lugar do artesanato, a cultura contemporânea impõe seu conceito de meritocracia que abre espaço para habilidades potencias em detrimento das realizações passadas

Em decorrência disto, identificamos o terceiro desafio, que enseja permitir que o passado fique para traz, criando uma espécie de “presentificação”, isto é, descartar as experiências já vividas. As modificações culturais desencadeadas no capitalismo contemporâneo impelem à busca de seres ideais: “uma individualidade voltada para o curto prazo, preocupada com as habilidades potenciais e disposta a abrir mão das experiências passadas”.

O estabelecimento deste paradigma cultural do novo capitalismo foi percebido através de pesquisas desenvolvidas pelo autor a partir da década de 1970 nos Estados Unidos. As mudanças estruturais descritas por Sennett não tem fronteiras nacionais, sendo notado que o declínio do emprego vitalício não deve ser identificado exclusivamente na América, igualmente, o fato é que o desmantelamento das grandes instituições não advém de uma mão invisível; “a nova economia continua apenas a ser uma pequena parte da economia como um todo. Ela efetivamente exerce profunda influencia moral e normativa, funcionando como padrão avançado da maneira como deve evoluir a economia de maneira geral”.

O autor nos convida a refletir sobre três temas: i – como as instituições vem mudando; ii – qual a relação do medo de se tornar supérfluo ou de se tornar ultrapassado em uma “sociedade da capacitação”; iii – em que o comportamento em relação ao consumo tem a ver com as atitudes políticas.

2 – BUROCRACIA

Segundo Sennett, as transformações das instituições modernas produziram efeitos colaterais no mercado de trabalho, e surgiram num momento em que as se multiplicaram as desigualdades, seja pelo “desaparecimento” dos modelos clássicos de emprego, seja pela globalização das economias. “Tudo o que é solido se desmancha no ar”, cita o autor se referindo a uma celebre formulação de Karl Marx sobre o capitalismo.

Desde a época de Marx a instabilidade parece ser a única constante do capitalismo. O sociólogo Joseph Schumpeter inclusive cunhou a famosa frase “Destruição Criativa” descrevendo sucintamente como um novo paradigma é estabelecido quando da destruição do anterior. Os estudos destes sociólogos permitiram a Max Weber no fim do século XIX compreender a organização capitalista como um mecanismo militarizado. Para Weber as corporações funcionam cada vez mais como exercito, onde todos possuem seu posto, e, cada posto sua função definida.

Segundo Weber, todas as formas de racionalização da vida institucional procedem originalmente de uma origem militar, cujas normas de fraternidade, autoridade e agressão tem caráter igualmente militar, embora os civis não tenham consciência de que pensam como soldados. Como economista político, Weber entende que o exercito constitui um modelo mais lógico da modernidade que o mercado.

Sob este aspecto, a burocracia se torna um modelo explicativo mais aperfeiçoado para o capitalismo do que o mercado. “O tempo está no cerne do capitalismo social militarizado: um tempo de longo prazo, cumulativo e, sobretudo, previsível. Esta imposição burocrática afeta tanto as instituições quanto os indivíduos”.

A organização deste modelo capitalista social concebido por Weber tornava possível uma previsibilidade em relação ao tempo: as pessoas podiam fazer de suas vidas narrativas estáveis e planejar em longo prazo suas carreiras profissionais. Sob o regime da estabilidade, essa organização capitalista organizava-se tal como uma pirâmide racionalizada. “A pirâmide é ‘racionalizada’, ou seja, cada posto, cada parte tem uma função definida”.

Sob esta ótica, é possível perceber que o modelo da pirâmide dominou as organizações, entre elas, o estado previdenciário. O sistema focalizava cada vez mais a estabilidade e a autopreservação institucional, deixando de lado a efetiva provisão de cuidados. A figura de retórica da “jaula de ferro” transmite a idéia de uma burocracia montada para dar estabilidade e solidez, podendo sobreviver a qualquer tormenta. “A contribuição de Weber neste aspecto se constituiu em conferir um contexto institucional ao impulso subjetivo”, onde se por um lado é uma prisão (a burocracia), a “jaula de ferro” também se constitui um lar psicológico.

Com o final do século XX, três mudanças importantes nas organizações tenderam a deslocar os sólidos pilares do capitalismo social militarizado. A primeira mudança foi o deslocamento do poder gerencial para o poder acionário, ou seja, uma transferência de poder dos grandes burocratas institucionais para os investidores, não raro, literalmente estrangeiros, e, muitas vezes indiferentes à cultura existente no interior das corporações forjadas ao longo do tempo por associações e alianças de longa vida.

A segunda mudança, em conexão com a anterior, é a preferência pelos resultados de curto prazo. Emerge a necessidade de mudanças permanentes, atualizações constantes e reengenharias – “reinventar-se continuamente ou perecer nos mercados”. Enormes pressões foram exercidas sobre as empresas para demonstrar mudanças e flexibilidade interna, parecendo muitas vezes tratar-se de instituições dinâmicas, ainda que funcionassem cotidianamente como grupos tradicionais moldados em perfeita harmonia com a época da estabilidade.

A terceira mudança que se defronta a “jaula de ferro” está no desenvolvimento das novas tecnologias, tornando instantâneas as comunicações em escala planetária e a manufatura. Com o aperfeiçoamento da tecnologia de comunicações, a informação pode ser transmitida de maneira intensiva e inequívoca desde sua origem por toda a corporação. Como consequência desta revolução, aconteceu a substituição da modulação e da interpretação das ordens por um novo tipo de centralização.

Essas três modificações serviram de condição para uma nova arquitetura institucional, diferente da sólida pirâmide do capitalismo social do século XX. O autor sugere uma nova imagem, a metáfora do tocador de MP3, que são modernos aparelhos reprodutores de musica que possibilitam a seleção do conteúdo aleatoriamente, utilizando alta capacidade de armazenamento e também estratégias de controle (o controle é conferido pela utilização de uma unidade central de processamento). Essa nova geografia do poder, produzida a partir da arquitetura “MP3”, evita a autoridade institucional e tem um baixo nível de capital social.

Weber observou que uma pessoa dotada de autoridade suscita obediência voluntaria, pois, seus subordinados acreditam nela. Para algumas pessoas, no entanto, a mistura de maior controle central e menor autoridade funciona muito bem. As organizações modernas desejam atrair jovens com espírito empreendedor que não tenham muita vontade de representar autoridade.

Os três déficits identificados pelo autor das mudanças estruturais são: baixo nível de lealdade institucional, diminuição da confiança informal entre os trabalhadores e enfraquecimento do conhecimento institucional. Estes níveis são colocados em prova nos momentos críticos dos ciclos econômicos.

3 – O CAPITALISMO SOCIAL EM NOSSA EPOCA

O autor identifica e examina três características principais do capitalismo contemporâneo, não apenas estabelecendo uma crítica, mas também analisando proposições alternativas a esses problemas em nosso tempo. Os três valores críticos examinados pelo sociólogo foram a narrativa, a utilidade e a perícia.

No que se refere à narrativa, o autor registra que, nas instituições do novo capitalismo, atuando em contextos temporais curtos e incertos, os sujeitos são privados de planejar sua vida em longo prazo, o que impossibilita a estabilidade de uma narrativa. Sennett aponta que, na atualidade, três movimentos colaboram para a desarticulação desse valor: a criação de instituições paralelas.

O papel do sindicato paralelo neste contexto busca transformar a experiência num fio narrativo, promovendo atividades para aqueles que ainda não estão grisalhos. Podem também ser notadas as soluções de compartilhamento de empregos, que permitem as pessoas equacionarem as relações família-trabalho e os programas de renda básica, que fornecem a cada jovem adulto uma soma de dinheiro para usar na educação, na compra de uma casa ou numa reserva para momentos conturbados.

Estas três vertentes estão voltadas para uma dura realidade, a insegurança não é apenas uma consequência indesejada das convulsões de mercado, estando na realidade programadas no novo modelo institucional.

Quanto à utilidade, o autor nos mostra os modos pelos quais a sombra da inutilidade se amplia no novo capitalismo. No entanto, o autor desloca o sentido de utilidade do trabalho formal para um significado mais amplo onde “sentir-se útil significa contribuir com algo de importância para os outros”. Isso permite classificar as participações voluntárias como alternativas de restabelecimento da utilidade dos sujeitos no novo capitalismo. A própria utilidade é mais que uma troca utilitária, trata-se de uma declaração simbólica relevante na medida em que partem da organização politica e social.

O terceiro valor crítico apontado pelo autor é a perícia, que representa o mais radical desafio em termos de políticas públicas nesta nova ordem. A perícia, segundo Sennett, restitui aos sujeitos um sentido de compromisso. Ela é a que mais desafia a individualidade idealizada pressuposta pelas instituições do trabalho, da educação e da politica. Há a necessidade de reação coletiva aos valores predominantes nesse novo capitalismo, sendo possível “que a revolta contra essa cultura debilitada seja a próxima página que vamos virar”.

4 – CONCLUSÃO

Como um efeito colateral de sua analise, percebemos que o autor joga uma luz nos fenômeno das redes sociais na internet, que embora não citada e tão pouco estudada nesta obra, pode muito bem estar desempenhando uma função social para suporte a narrativa da vida, carente nas instituições formais. O tempo, soberano, se encarregará de dirimir as duvidas a respeito deste tema e atribuirá a esta nova instituição virtual uma utilidade e capacidade de subliminarmente compensar as perdas de capital social do novo sistema econômico.

Sobre holbeinmenezes

GRADUADO EM ENGENHARIA OPERACIONAL, PÓS-GRADUADO EM ENGENHARIA ECONÔMICA, MBA EM GESTÃO PARA QUALIDADE TOTAL E MESTRANDO EM ADMINISTRAÇÃO
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