MOBILIZANDO ESTRATÉGIAS EMERGENTES

Publicado no RAE (VOLUME 43 N° 2 – 2003) autor: MARIOTTO, FÁBIO LUIZ

Por Holbein Menezes

Com uma visão holística sobre o tema de estratégias empresariais, o autor discorre sobre quatro diferentes abordagens do conceito da estratégia emergente, estratégia esta que não prescinde de plano formal e via de circunstância emerge do conhecimento, da experiência ou da vivencia das empresas e seus atores para serem estabelecidas.

Sob esta ótica, o autor analisou primeiramente as estratégias emergentes como fenômeno hierárquico, a qual surge como resultado de iniciativas vindas de níveis mais baixos da hierarquia das empresas, e induzida pela alta direção com os mecanismos administrativos adequados, usualmente sistemas de recompensas (Brower, 1970), passam a influenciar os rumos da empresa. Dessa forma, estratégia das áreas de negócio pode emergir; ser “induzida”; como resultado de uma estratégia corporativa mais ampla e dirigida aos interesses dos atores estratégicos da organização.

Uma variação deste modelo, descrito por Burgelman (1983), é aquele no qual gerentes de nível hierárquico mais baixo interferem nas estratégias já estabelecidas, tomando iniciativas importantes fora dos parâmetros planejados e estabelecidos pela estratégia formal. Projetos oriundos da percepção da gerência em diferentes níveis hierárquicos podem ser absorvidos e implementados pela alta direção, absorvendo excessos de recursos da firma e oportunizando maiores lucros futuros.

Outra visão da formação estratégica, por sinal bastante radical, é aquela que percebe a emersão das estratégias como efeito das ações e compromissos firmados pelas organizações, ou ainda, de uma maneira mais aguda, percebendo-a como se a organização agisse deliberadamente com a finalidade de descobrir seus objetivos. Este tema levantado por James March (1976) a primeira vista ilógico, é baseado no comportamento instintivo e natural do ser humano, que entende que o nosso comportamento é tanto o de descobrir objetivos como o agir a partir deles.

Com esta visão intrigante, March acredita que valores mudam e são desenvolvidos através da experiência, em outras palavras, as pessoas podem aprender sobre seus próprios objetivos se começarem a agir. Suas idéias abrem uma nova dimensão para o entendimento de estratégias emergentes, sendo que sob este prisma as estratégias podem se formar na ausência de intenções prévias, como as intenções podem surgir na medida em que a organização age.

Já Karl Weick (1979), embora mantenha grande afinidade com os conceitos de March, de maneira mais cética, percebe esta formação como uma maneira de reconstruir histórias plausíveis a posteriori, para, deste modo, explicar onde se encontram no momento, muito embora nenhum dos fatos tenha comprovadamente o conduzido a este lugar. Assim, para Weick, as estratégias emergem depois da ação, na forma de percepções que dão sentido aquilo que foi feito.

Outra linha de interpretação da estratégia emergente considera que a estratégia seria o resultado espontâneo de ações não coordenadas de inúmeros agentes, cada um agindo segundo regras próprias. Um modelo abstrato deste tipo comportamento pode ser notado na organização dos formigueiros, onde o funcionamento da colônia independe da coordenação dos membros individuais. Este modelo abstrato vem da teoria da complexidade originalmente desenvolvida para explicar fenômenos físicos e biológicos.

Tais sistemas exibem características típicas como auto-organização espontânea e a habilidade de permanecer em uma condição intermediária entre o caos e a ordem. Por exemplo, o clima é uma propriedade emergente, pois, pequenos fenômenos ocorrendo em microambientes interagem podendo resultar em fenômenos maiores como o furacão. Os sistemas naturais podem ser entendidos como maquinas, ao invés de serem projetados para cima, conforme um engenheiro humano faria, emergem de baixo para cima (Waldrop, 1992).

Estratégias emergentes, como resultado de auto-organização em sistemas complexos, podem ser percebidas, em analogia ao conceito de Adam Smith da ação da mão invisível guiando as transações em uma economia de mercado livre, como emersão pura, espontânea das estratégias em organizações. Este conceito tem muita resistência e é visto como inadequado para as organizações humanas, onde as decisões da alta direção fazem a diferença nos negócios. Quando tal influencia está completamente ausente, a organização fica a mercê do ambiente onde está inserida, que lhe impõe uma linha de ação. Para Mintzberg e McHugh (1985) é um comportamento totalmente passivo e um caso extremo de emersão de estratégia.

Muitos anos depois de ter criado o termo de “estratégia emergente”, Mintzberg (1990) decidiu juntar suas idéias a de outros autores e propôs o modelo de estratégia como um fenômeno de aprendizado. Refere-se a organizações essencialmente administradas e estruturadas por projetos ao redor de especialistas, que são reunidos em função da especificidade de cada projeto. Exemplos de organizações tradicionais que se encaixam neste modelo são as empresas de consultoria, organizações de pesquisa, agências de publicidade entre outras.

Para o autor, estas seriam as organizações do futuro onde o propósito central seria inovar, e o resultado dos esforços jamais podem ser conhecidos com antecedência. Neste tipo de organização os padrões nunca se estabilizam, ao contrario, mudam constantemente. A estratégia evolui à medida que várias decisões são tomadas, sendo que cada projeto deixa sua marca na estratégia. As decisões estão de tal modo entrelaçadas, e são tantas as pessoas envolvidas, que é impossível apontar uma única parte da organização como o local onde a estratégia é formulada.

Em todos os conceitos analisados, podemos perceber a coerência com o termo cotidiano da palavra “emergente”. Deste modo vimos a estratégia emergente como um fenômeno hierárquico, brotando da base da organização e se impondo ao topo, como um fenômeno cognitivo, quando a organização coletivamente começa a percebê-la, como resultado da auto-organização em sistemas complexos, desenvolvida do resultado espontâneo de inúmeras ações não-coordenadas e como fenômeno de aprendizado, quando a organização corrige suas ações e ou planos a partir do vetor emergente.

Em um estudo realizado para investigar inovações em seis firmas da indústria da computação, Browne Eisenhardt (1997) concluíram que nos ambientes da chamada indústria de alta velocidade, caracterizadas por ciclos curtos de produtos, a estratégia via planejamento estratégico é inadequada. Identificaram um novo padrão de mudança continua e perceberam três propriedades cruciais: as empresas atingiam o equilíbrio entre a ordem e a desordem, usavam extensivamente “incursões ao futuro” e administravam cuidadosamente a transição entre projetos presentes e futuros.

Ao adotar uma organização intermediaria entre a forma mecanicista e não estruturada, os gestores conseguiam atingir o equilíbrio entre a rigidez do planejamento e o caos de meramente reagir aos acontecimentos.

Outro autor, Osborn (1998), propõe um método de ação estratégica desenvolvido para organizações do novo formato, tipicamente onde se encontra hierarquia achatada e informação distribuída. Para ele, estratégias emergentes são desenvolvidas coletivamente para responder ameaças competitivas, e sustenta que estratégias emergentes existem paralelamente as estratégias intencionadas, sendo mecanismos de correção ou adaptação destas.

Podemos inferir que todas as interpretações acima são mais complementares que conflitantes. O autor apresenta um quadro conceitual para a compreensão da emersão das estratégias e do papel que ela pode desempenhar no processo estratégico. Como premissa desta matriz para analise, toma-se como premissa que toda organização tem uma finalidade, todos os membros estão conscientes deste fim e uma estratégia não precisa ser uma idéia objetiva para ser útil a organização.

O autor propõe um modelo que combina intenção com imersão, composto de dois subprocessos que evoluem paralelamente na organização. Em um nível, os objetivos gerais, a visão e a avaliação das oportunidades e riscos norteiam a formulação das estratégias intencionadas, no outro, da formação continua de estratégias, membros interagem com agentes do mercado, e orientados pela visão geral estabelecida na organização, detectam novas oportunidades, realimentam por iniciativa própria a estratégia intencionada, amendando seu propósito.

Concluímos que o papel da liderança é fundamental para maximizar o transbordamento das “estratégias emergentes” em uma organização, exigindo deles uma postura flexível na análise das diferentes perspectivas emergentes, dirigindo, quando necessário, as emersões para o maior benefício da organização e reconhecendo seu papel de facilitador dentro processo. Se a formação estratégica é algo único, a organização deve, quando necessário abandonar modelos bem sucedidos do passado e reconhecendo que o futuro é incerto.

Sobre holbeinmenezes

GRADUADO EM ENGENHARIA OPERACIONAL, PÓS-GRADUADO EM ENGENHARIA ECONÔMICA, MBA EM GESTÃO PARA QUALIDADE TOTAL E MESTRANDO EM ADMINISTRAÇÃO
Esse post foi publicado em ESTRATÉGIAS EMPRESARIAIS. Bookmark o link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s