PREFÁCIO

Naquela tarde eu ia ouvir pela primeira vez musica em
conserva; meu pai seria o mestre-de-cerimônias. Tratava-se de um
disco de cera com valsas e polcas, grande, trinta centímetros, tocado
num gramofone movido à corda, agulha de aço, cabeçote de alto
ganho com sinal amplificado por uma corneta. Foi um assombro!
Ficamos boquiabertos. Dias depois, passados os efeitos da surpresa,
comecei a observar que o som da voz da cantora do disco não era
igual à voz de Dona Francisca Clotilde, quando tocava piano e
cantava valsas de Strauss no teatrinho da cidade. Pensei: um dia
será melhor.

Vinte e tantos anos depois, numa tarde de domingo fui convidado
por um vizinho, com quem me encontrei na esquina da rua onde
ambos morávamos no Rio, me informa e me convida para ouvir sua
eletrola de alta-fidelidade que acabara de adquirir. “Uma coisa do
outro mundo.”- me disse ele. “- Só vendo pra acreditar. De fato, dois
lindos móveis em imbuía, um com o toca-discos manual, agulha de
safira e amplificador de válvula, e outro com três alto-falantes,
formando a caixa acústica; e uma novidade extrema: divisor de
freqüências! O som era perfeito: ouvia-se com nitidez o sutil toque
do triângulo na orquestra, e os contrabaixos roncavam na sala,
possantes e gordos. O som dos tímpanos parecia o bater do cabo da
vassoura nos tapetes. Outra novidade: discos inquebráveis, de vinil!
Foi preciso quase um ano para que eu começasse a estranhar o
leque sonoro; o som não enchia o “living” do apartamento de meu
amigo, não era amplo como acontecia no Teatro Municipal.

Nem me recordo que tempo se há passado até o dia em que
ouvi pela primeira vez a reprodução estereofônica. Um sistema que
ganhei em troca de um favor prestado, composto de duas pequenas
colunas para reprodução dos médios e altas freqüência – as
posicionei nos cantos de minha sala, distantes uma da outra quase
quatro metros – e o móvel central com um toca-discos no topo, e,
embutidos, pré e amplificadores valvulados; na parte de baixo um
alto-falante pros graves. O som andava na sala! Começava de um
lado, plac, aos poucos ia caminhando, plac, plac, chegava ao centro,
plac, seguia caminho, plac, plac, terminava no outro lado, plac.

Verdadeira mágica! A bola de pingue-pongue saltava de um canto
pro outro num vaivém espantoso. Violinos à esquerda, Violoncelos à
direita, Tímpanos batendo no centro. Finalmente a orquestra!
Finalmente?

Nem tanto assim: por vezes se fazia um vazio no centro, em especial
nos pequenos conjuntos orquestrais. Mas a fidelidade da reprodução
era perfeita, tão perfeita que… lá estavam também o barulho dos
fundos dos discos, o chiado do sujo nos sulcos, o ploc-ploc das
arranhaduras no vinil. Nas salas de concerto isso não se ouvia. Como
melhorar?

Aí vieram as manobras infindáveis, cansativas, os
procedimentos empíricos de lavagem com água e sabão, os produtos
químicos milagrosos, as máquinas de limpeza, custosissímas; então a
indústria de acessórios proliferou como nunca, e prosperou. E depois
vieram as soluções “ científicas”: Para as capsulas fono-captora, da
mudança do amortecimento das agulhas, da alteração da forma do
estilete (de esférica para elíptica, desta para parabólica, daí pra
shibata, de shibata para “weinz”, em seguida isso e mais aquilo,
numa fauna inesgotável). Não faltaram as bolações esotéricas:
enorme peso no centro do prato do toca-discos, tapetes para suporte
dos discos de todos os materiais, até de metal para colocar sobre
outro metal, tudo para evitar vibrações “simpáticas” e antipáticas,
essas sobretudo, que causavam zumbidos antieufônicos
desagradáveis.

Vocês, da era do CD e DVD, pensam que estou brincando, ou
exagerando? Da missa não contei nem a metade. Vitima dos
compassos da tecnologia, que embaraçam e impõem padrões aos
mais nobres apreciadores das artes musicais, e via de regra
manipulam os nossos desejos a mercê dos interesses econômicos.
Este livro fala disso; aborda sob o ponto de vista técnico tal
perspectiva. Na palavra simples de dois professores experimentados,
vocês encontrarão respostas para dúvidas…, ou dúvidas sem
respostas. Inda assim, conceitos quando nada sinceros, aprendidos
ao longo do convívio com o negócio cultural e aprofundados nos
estudos que desenvolveram.

Por: Holbein Menezes, pai

Sobre holbeinmenezes

GRADUADO EM ENGENHARIA OPERACIONAL, PÓS-GRADUADO EM ENGENHARIA ECONÔMICA, MBA EM GESTÃO PARA QUALIDADE TOTAL E MESTRANDO EM ADMINISTRAÇÃO
Esse post foi publicado em A INDÚSTRIA FONOGRÁFICA: UM MODELO DE NEGÓCIO EM QUESTÃO.. Bookmark o link permanente.

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