CONCLUSÃO.

Qualquer análise da indústria fonográfica não pode passar ao
largo do contexto maior onde ela se insere, que é o da Indústria
Cultural, a qual não é nem um pouco ingênua na sua forma de
atuação, no sentido de que tem na lógica do mercado da estimulação
do consumo e apuração dos lucros resultantes, a sua motivação
maior.

Como tal, a indústria fonográfica sofreu e sofrerá impactos das
duas variáveis presentes em todos os momentos dos negócios: as
contingências do ambiente operacional dos negócios e a tecnologia.

Como negócio, influencia nos padrões de consumo, na
pasteurização das idéias e tem sido implacável na seleção das
“espécies superiores”, segundo seus interesses. A exemplo do que
ocorreu no Brasil, onde um pioneiro – mas um tanto amador nesse
negócio –, não resistiu às investidas dos grupos internacionais mais
fortes.

Se no início o amadorismo desse empreendedor permitiu
espaços para todas as manifestações culturais do país, a
internacionalização do negócio iniciou o processo de criação de
padrões estéticos vendáveis, por meio da larga produção de artistas
fabricados, necessários para movimentar a indústria como se fossem
o produto “vaca leiteira”.

Nesse contexto, desponta como peça fundamental na
produção fonográfica a figura do produtor. Como criador de padrões
de sucesso, o produtor tem não só na sua intuição, mas, em
especial, no profundo conhecimento do mercado, a função de lapidar
o produto de sucesso para cada momento dado. Ele está por trás de
todo sucesso musical.

Sucesso musical que passa também pelo processo de difusão.
Aqui aparece de forma clara o processo de seleção natural dos
“melhores” a partir do critério comercial.

A conseqüência natural desse processo foi o surgimento dos
“independentes”, isto é, a busca de espaço por parte daqueles que
ficaram à margem das grandes estruturas.

Os independentes nunca chegaram a ser uma ameaça para as
grandes gravadoras, nem tinham essa pretensão; e na realidade
estão, em muitos casos, servindo de “incubadoras” de artistas para
elas.

Ao longo do tempo a indústria fonográfica ajustou-se às
conjunturas político-econômicas e, à semelhança de outros negócios,
fez aquisições, fusões, terceirizações etc. Modernizou-se,
incorporando às inovações tecnológicas ao seu processo produtivo,
conseguindo chegar a segunda metade do século passado
proporcionando ganhos expressivos aos seus principais atores.

Entretanto, esse sucesso obscureceu a visão dos seus líderes,
impedindo-os de perceberem a ameaça originada exatamente na
conjunção dos mesmos fatores que lhe foram favoráveis até então. A
inovação tecnológica e as condições econômicas e sociais nos países
emergentes e pobres abriram espaço à pirataria, impondo uma
concorrência desleal e predadora.

Por outro lado, nos países desenvolvidos a tecnologia MP3
possibilitou a troca de músicas entre internautas, atingindo em cheio
um componente da cadeia de valor do modelo de negócio, que é o
processo de distribuição.

No nosso entendimento, a indústria fonográfica sobreviveu à
inovação destrutiva de Schumpeter, mas está numa encruzilhada
frente à inovação de ruptura de Clayton Christensen.

Não concordamos, entretanto, com os que vaticinam o fim das
gravadoras, afinal, o aparecimento do rádio também as ameaçou e
logo em seguida contribuiu para o seu sucesso. Mas, certamente, o
modelo de negócio que fez sucesso até agora deverá ser
reinventado. O crescimento da distribuição digital resulta num
equilíbrio natural de forças entre as gravadoras e os artistas, o que
as impelem a encontrar novas soluções como por exemplo
abandonar o modelo vigente de “Copyright” para quem sabe abraçar
o trabalhoso modelo de “Trade Mark”.

Em A Galáxia de Gutemberg – Marshall McLuhan, identifica as
tecnologias como extensões do homem, dos seus sentidos e sua
formas de ser, oferece-nos uma explicação da transformação do
homem da cultura oral e manuscrita no homem da cultura tipográfica
e moderna, e nos traça um paralelo a mudança irremediável imposta
ao consumidor pela internet. Consumidor, que não tolerará comprar
um CD com músicas que ele não deseja. Ainda hoje a prática da
indústria é cobrar por todas as músicas de um CD, em geral com dez
faixas, mesmo que o consumidor deseje comprar apenas duas ou
três. Certamente o novo perfil de consumidor da era da Internet
buscará um jeito para pagar apenas pelas faixas que realmente
desejar, construindo seu próprio CD e misturando faixas de diversos
artistas e gravadoras num único disco.

Atualmente, a “Música” é a terceira categoria mais procurada
na Internet, e como nos parece natural que esse meio assumirá o
papel do mais importante canal de entretenimento em pouco tempo,
semelhante à televisão e rádio em outras épocas, uma nova indústria
multimídia emerge como desafio à ordem estabelecida. Soluções
como “Pay-per-view” – incluindo concertos ao vivo e entrevistas com
artistas, além de oportunidades de “merchandise” e vendas a varejo
-, são apenas traços a lápis da construção desse novo cenário,
demandando das gravadoras um empenho muito maior em
marketing e promoção que o direcionado atualmente, tornando-se
esse valor o diferencial de cada gravadora.

E mais, como as gravadoras não mais terão os custos de
manufatura, distribuição, frete, dentre outros custos, que hoje,
percentualmente, representam boa parte da formação de preço do
CD, qualquer pessoa poderá ter sua gravadora e disponibilizar seus
produtos fonográficos na Internet, aumentando a competição e
possibilitando a democratização dos meios de produção e
distribuição.

Sobre holbeinmenezes

GRADUADO EM ENGENHARIA OPERACIONAL, PÓS-GRADUADO EM ENGENHARIA ECONÔMICA, MBA EM GESTÃO PARA QUALIDADE TOTAL E MESTRANDO EM ADMINISTRAÇÃO
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