A Banalização da Injustiça Social

RESENHA DO LIVRO: DEJOURS, Christophe. A Banalização da Injustiça Social. Rio de Janeiro, Ed. Fundação Getúlio Vargas, 1999, 4ª ed.P.11-60.

1- INTRODUÇÃO

O autor propõe uma discussão acerca da conjuntura social moderna, na qual identifica muitos pontos comuns com uma situação de guerra, contudo, uma guerra econômica e, os efeitos dessa guerra na vida das pessoas, buscando traçar um paralelo com uma guerra real, onde a sobrevivência da nação e a garantia da liberdade é o que se busca.

Em nome desta justa causa é que são empregados no mundo do trabalho, métodos cruéis contra os concidadãos, afim de excluir aqueles não aptos a combater, os velhos sem agilidades, os jovens despreparados e os vacilantes, que são demitidos das empresas, ao passo, daqueles que ficam, os aptos, são exigidos sacrifícios extras, mais eficiência, mais empenho, abnegação da vida particular, em prol da competitividade.

Em nome dessa guerra sã, admite-se atropelar princípios, tudo em prol da saúde, neste caso, da saúde das empresas, onde o indivíduo perde com o passar do tempo a esperança de melhora, chegando à conclusão que seus esforços só prejudicaram situação.

A cada semana, essa guerra econômica destrói mais empresas. As pequenas e medias empresas, mais vulneráveis do que as grandes são particularmente atingidas, mas também os gigantes, que lucram pela a eliminação de seus concorrentes menores, não estão a salvo da derrota.Na verdade esta guerra econômica causa estragos, inclusive entre os mais ardentes defensores de um liberalismo sem peia.

Alguns especialistas enviam sinais de alarme. A ineficácia de seus apelos os leva a suspeitar que certos atores do drama estão conduzindo as coisas a cega. Contudo, Dejour discorda desta visão. Suas experiências junto a dirigentes indicam que os protagonistas estão cientes dos riscos que correm, mas que, em sua maioria, não desejam mudar o rumo, pois entendem que neste processo, seus adversários serão os primeiros a se esgotar, portanto, reinarão na paz restabelecida.

Uma parcela dominante dos dirigentes , cujas convicções neoliberais são lógicas e compreensíveis, tem seus ideais não só aceitos, mas partilhados pela maioria dos cidadãos europeus. Por isto as posturas e as decisões destes são só legais, como também legitimadas pela sociedade.

Mas o que intriga a todos nós é por que a maquina de guerra funciona tão bem? Possivelmente esta guerra começou e se prolongou porque era inevitável. Ela se auto-engendrou se auto-reproduziu em virtude da lógica interna do sistema econômico mundial; o mercado. Ou ainda, pela existência de leis econômicas tidas como leis “instituídas”, isto é, construídas pelos homens, onde a evolução das conjunturas é sensível às decisões e ações humanas.

Sob esta perspectiva, a guerra sã não teria origem unicamente na natureza dos sistemas econômicos, no mercado ou na globalização, mas nas condutas humanas. A máquina de guerra funciona por que homens e mulheres consentem em dela participar. O que nos leva a refletir sobre as motivações subjetivas da dominação. Porque uns consentem em padecer sofrimento, enquanto outros consentem em infligir tal sofrimento aos primeiros?

1.1 – Como tolerar o intolerável.

Mas por que a maquina de guerra funciona tão bem? Porque homens e mulheres assim consentem e não denunciam. O autor define duas possíveis respostas, uma que teria o status de lei natural, em uma lógica do sistema econômico mundial, o mercado, a outras é a lei instituída, constituída pelos homens, onde a evolução das conjunturas é sensível às ações do homem.

Dejours discorre sobre possíveis causas da tolerância dos indivíduos em relação ao que ele chama de “métodos cruéis” empregados pelas corporações em relação aos seus funcionários e vivenciados por estes últimos no ambiente profissional. O medo instituído de ser excluído, onde a demissão, o desemprego acarreta mudanças na identidade do individuo, ocasionando doença mental e física, quando só se buscava a felicidade, mas a cumplicidade em conviver sem ética de responsabilização e justiça, onde a psicodinâmica resulta no processo de banalização do mau, mau até contra outros.

Neste intento, sua argumentação baseia-se em que os indivíduos tendem a resignar-se diante dos problemas por absoluta dissociação entre a percepção do sofrimento alheio e a injustiça, mas esse fenômeno sistêmico só se altera quando o sofrimento e a dor passam diretamente ao eu do trabalhador, e com a transformação da qualidade social a partir dos anos 80 observamos mais movimentos de indignação contra a banalização do mau e mudança na gestão das empresas.

2-O TRABALHO ENTRE O SOFRIMENTO E O PRAZER.

Antes de se aprofundar na analise das relações entre sofrimento e injustiça, o autor nos mostra uma visão ampliada do sofrimento e sua relação com o trabalho, sofrimento que se supunha ter sido atenuado, ou mesmo, completamente eliminada pela mecanização e automação das tarefas.

Entretanto, por traz das vitrinas, há o sofrimento dos que temem não satisfazer, não estar à altura das imposições das organizações do trabalho: Imposições de horário; de formação; de aprendizagem; de nível de instrução e diploma; de experiência, rapidez de aquisição de conhecimento e destacadamente de adaptação a “cultura” ou ideologia da empresa.

Os estudos clínicos e as sondagens realizadas na França e em outros países no final do século XX, revelaram que por traz do progresso e da modernidade há um mundo de sofrimento, que deixa o autor perplexo devidoa omissão dos meios de comunicação que passaram a direcionar seus focos ao progresso tecnológico.

2.1 – Formas típicas de Sofrimento: Medo da incompetência

O “real do trabalho” é o que resiste ao conhecimento, ao saber, à técnica, ao domínio. O autor nos leva a questionar a defasagem entre a organização prescrita do trabalho e a organização real do trabalho.

A execução rigorosa das instruções e procedimentos leva á “operação padrão” ou “operação tartaruga”, em que o trabalho é executado com zelo excessivo.A gestão concreta da defasagem entre o prescrito e o real depende da mobilização dos impulsos afetivos e cognitivos da inteligência.

Neste aspecto o zelo no trabalho é tudo aquilo que os operadores acrescentam à organização prescrita para torná-la eficaz, que empregam individual ou coletivamente e que não depende da “execução.

Muitas vezes, os trabalhadores não têm como saber se suas falhas se devem à sua incompetência ou anomalias do sistema técnico. De qualquer forma, é a angústia de não estar à altura, de se mostrar capaz de enfrentar situações incomuns, incertas e que exigem responsabilidade, tornando-se fonte de angústia, que toma forma de medo de se mostrar frágeis.

2.2 – Formas típicas de Sofrimento: Pressão para trabalhar mal.

Outra causa frequente de sofrimento no trabalho surge em circunstancias opostas aquelas mencionadas, surgem da questão a competência e a habilidade.O trabalhador, mesmo sabendo o que deve fazer, não pode fazê-lo porque o impedem as pressões sociais do trabalho (ambiente social péssimo, obstáculos, sonegação de informação, prejuízo de informação etc.), constrangendo-o por métodos e regulamentos incompatíveis entre si.

O autor nos exemplifica esta visão através do caso do técnico de manutenção, onde não estão em questão a competência e a habilidade, mas as pressões sociais do trabalho (colegas criam obstáculos, o ambiente social é péssimo, cada qual trabalha por si, sonegam-se informações, prejudica-se a cooperação).

2.3 – Formas típicas de Sofrimento: Sem esperança de reconhecimento.

O trabalho exige total concentração da personalidade e da inteligência de quem trabalha. Quando a energia e o investimento pessoal aplicados ao trabalho não são reconhecidos, gera-se sofrimento mental.

O reconhecimento, portanto, é fundamental na dinâmica da mobilização subjetiva da inteligência e da personalidade no trabalho, permitindo a transformação do sofrimento em prazer, pois passa a dar sentindo não só ao trabalho, mas ao esforço, à angústia, à dúvida, à decepção.

O reconhecimento implica também na construção da identidade do sujeito e inscreve o trabalho na dinâmica da realização do ego. A identidade constitui a armadura da saúde mental. Quando o reconhecimento não acontece, o sujeito se vê reconduzido somente ao seu sofrimento. Num círculo vicioso e desestruturante, podendo levar à doença mental.

2.4 – Formas típicas de Sofrimento: Sofrimento e Defesa.

Em vez de detectar doenças mentais do trabalho, registrou-se que a maioria dos trabalhadores permanece na “normalidade”. Como conseguem não enlouquecer? A normalidade é interpretada como o resultado de uma composição entre o sofrimento e a luta contra o sofrimento no trabalho. A normalidade não implica em ausência de sofrimento, mas uma normalidade sofrente.

Se o sofrimento não se faz acompanhar de descompensação psicopatológica, é porque contra ele o sujeito aplica defesas que o controlam. As estratégias coletivas de defesa são construídas e empregadas, pelos trabalhadores, para esse fim.

As estratégias defensivas podem contribuir para tornar aceitável aquilo que não deveria sê-lo. Cumprem papel paradoxal, porém capital, nas motivações subjetivas de dominação. Por outro lado, necessárias à proteção da saúde mental contra os efeitos do sofrimento, elas também podem funcionar como uma armadilha que insensibiliza a pessoa contra aquilo que a faz sofrer.

3 – O SOFRIMENTO NEGADO.

Segundo Dejours, se o desemprego é a principal fonte de injustiça e de sofrimento, o grande palco do sofrimento é certamente o trabalho.

Na década de 70, os sindicatos e o Partido Comunista Francês – PCF – rejeitaram as questões do sofrimento psíquico no trabalho, ao mesmo tempo, o movimento esquerdista assume este discurso apenas em busca de poder político.

Apesar da tradição cultural das preocupações com os direitos de igualdade e liberdade, na França a saúde no trabalho foi tratada de forma mais lenta que em diversas grandes potências mundiais.

Todo este cenário de viés reacionário fez surgir uma fragilidade crescente das organizações sindicais. Dejours questiona: até que ponto a perda de expressão dos sindicatos é causa ou consequência da tolerância pelo sofrimento e do descaso pela subjetividade?

3.1 -Negação pelas organizações políticas e sindicais.

Segundo Christophe Dejours, a fragilidade sindical e dessindicalização não são apenas causas da tolerância, mas consequência dessa tolerância.

O negligenciamento entre trabalho e subjetividade, mas especificamente do sofrimento no trabalho perde espaço para a preocupação voltada para saúde do corpo, a atenção à saúde mental, ao sofrimento psíquico no trabalho, ao medo da alienação e a “crise do sentido do trabalho”, são assuntos deixados de lado nas décadas de 70 e 80.

Para os sindicatos, dar atenção a estas subjetividades era tido como prática individualizante, capaz de tolher a ação coletiva. Era uma atitude tida como anti-materialista, tolhendo a consciência de classe e favorecendo o pensamento “pequeno-burguês”.

As pesquisas em psicologia do trabalho evoluíram muito mais no sentido do estudo de “processos” do que na área da medicina do trabalho. Neste período surgiram métodos de “dinâmica de grupo” e uso de recursos audiovisuais como grandes novidades do momento. Todo este movimento acabou tendo como consequência a desqualificação do discurso da subjetividade e para a tolerância ao sofrimento subjetivo.

O sucesso do economicismo da era Mitterrand está ligado ao descompasso das organizações sindicais com a questão da subjetividade, pois o campo ficou livre para o crescimento dos conceitos de Recursos Humanos e Cultura Empresarial. Ficou um vazio para o desenvolvimento de projetos alternativos ao economicismo de esquerda e de direita.

3.2 -Vergonha e inibição da ação coletiva.

Ao mesmo tempo que a preocupação com o subjetivo passa a ser renegado, a falta de reação coletiva diante da adversidade social e psicológica causada pelo desemprego acaba sendo precedida por uma recusa deliberada de mobilização coletiva sob o pretexto de que o sofrimento psicológico do trabalhador resultava de uma sensibilidade exacerbada, de que se mobilizar pelo sofrimento psíquico era tomar o reflexo pela causa e levar ao impasse o movimento sindical. Começa então surgir um fenômeno silêncios e devastador de tolerância pelo sofrimento social.

Esta falta de preocupação com o sofrimento abriu as portas para “inovações gerenciais e econômicas”.

Nos EUA e Japão, por exemplo, cresce a “cultura empresarial” com novos métodos de RH usando promessas de “felicidade e sofrimento” com o pretexto da “adaptação na contribuição pela excelência”.

O pensamento neoliberal toma a frente, com alguns princípios que abandonam a figura do trabalhador como ser humano. Algumas destas idéias afirmavam que o trabalho é artigo raro, pois a automação poderia substituí-lo, o trabalho não suscita mais problema científico, pois se trata de uma atividade transparente, inteligível, reproduzível e formalizável.

De acordo com este novo movimento, os únicos trabalhos das empresas residem na concepção e na gestão. Desta forma o trabalho não confere mais sentido à vida dos homens, convém então, procurar substitutos do trabalho como mediador desta subjetividade.

Em contra ponto ao neoliberalismo, Dejours entende que o trabalho não é raro, na verdade existe uma sobrecarga de trabalho, principalmente sobre os terceirizados, além de uma mudança de local geográfico para a execução deste trabalho e aumento da forma ilegal, com jornadas abusivas e precariedades diversas.

Para Dejours, a bandeira da “Qualidade Total” surge como uma cortina que se sobrepõe a degradação da qualidade de trabalho e não é possível encontrarmos um substituto para a realização do ego no campo social além do trabalho.

Dejours percebe em seus estudos, que os gerentes, que antes atuavam acima da linha do sofrimento, passam a pertencer a este grupo. Os que sofrem com o trabalho encontram dificuldades para reagir coletivamente e a vergonha de pertencer ao grupo mais frágil acaba trazendo consequências como a “inculpação”, que se trata do efeito subjetivo de desaprovação por parte de políticos, intelectuais, executivos, da mídia e da massa, pois este tipo de mobilização coletiva passa a ser visto como uma atitude contra a perenidade empresarial e consequentemente ao progresso.

A vergonha espontânea de protestar quando é minoria passa a ser incorporada por todos como se os problemas sociais só afetassem os pobres e desvalidos.  Em meio a crise de desemprego, passa a valer a ideia de que você não deve reclamar do sofrimento no trabalho, porque ainda o tem. Logo, o espaço para discussão sobre as mazelas psíquicas do trabalhador torna-se restrito.

Talvez a consequência mais cruel da tolerância social, trata-se do ponto em que a não aceitação do sofrimento no trabalho, faz com que problemas graves sejam apagados da memória, ou seja, o indivíduo cria uma tolerância com o seu próprio sofrimento e começa também a abstrair o sofrimento alheio.

3.3 -Surgimento do medo e submissão.

O efeito da demissão, inevitavelmente, em maior ou menor grau, acarreta o aumento da carga de trabalho e o surgimento de novas e inquietantes formas de sofrimento. Em suas pesquisas, Dejours analisa o comportamento de trabalhadores em diferentes níveis hierárquicos e constata o que ele chama de defasagem entre “descrição gerencial do trabalho” e “descrição subjetiva do trabalho”.  Trata-se de um exercício de comparação de diferentes descrições sobre o processo de trabalho.

De um lado, gerentes de métodos, de setores que controlam a qualidade e os setores de RH, narram uma descrição fria e objetiva do trabalho, estes atores tendem a compreender as tarefas sob um ponto de vista gerencial, que possui grande distanciamento da descrição realizada por chefes de produção e operadores, que por sua vez realizam uma narrativa da mesma tarefa sob um enfoque mais subjetivo. Ambos são coerentes em suas narrativas, no entanto, a descrição gerencial se abstém de detalhes importantes que possuem grande peso na saúde psíquica dos operadores.

Dejour destaca que o trabalhador se precariza pela precariedade de suas condições de trabalho. Com a grande procura por emprego e a alta rotatividade, surge o medo da demissão e a submissão a esta precariedade. Os efeitos desta precariedade são: no caso das demissões, surge a intensificação do trabalho e o aumento do sofrimento subjetivo. O desencorajamento de pertencer ao grupo mais frágil causa a neutralização da mobilização coletiva contra o sofrimento que consequentemente faz emergir o silêncio e banalização do sofrimento por mais grave que seja, por fim, culmina-se o individualismo, o cada um por si.

3.4 – Da submissão à mentira.

A Discrepância entre a “descrição gerencial” e a “descrição subjetiva” está diretamente relacionada à inexistência de discurso organizado de contestação da discrepância das descrições pelos operadores e pelos gerentes.

Silenciosamente, a ameaça ao trabalhador é manipulada por diversos fatores como a própria dificuldade que os gerentes possuem em lidar com os problemas subjetivos, neste caso, informalmente, o gerente encontra-se impossibilitado de colocar em debate ou reflexão as barreiras da discrepância em relação ao subjetivo. Isso acontece porque o gerente é “desafiado” a trazer soluções para empresa e deixar os problemas da intolerância emergirem pode parecer indício de incompetência.

Deste modo, os gerentes passam a ter medo de levar a reflexão adiante e de terem as dificuldades usadas contra eles próprios. Em última análise, o medo se resume ao desemprego e como a disputa externa por oportunidades na área dos operadores, os próprios gerentes, de forma ardil, lançam mão desta manobra para intimidar os operadores.

Uma empresa só funciona quando os trabalhadores se ajudam através do uso de macetes, quebra-galhos, truques e até mesmo a antecipação a problemas eminentes. O espírito de cooperação mútua é a engrenagem informal de toda empresa. Faz parte de uma inteligência cognitiva necessária para a sobrevivência da instituição. Seguir rigorosamente a disciplina paralisa a máquina.

O medo do desemprego funciona como um motor que movimenta a máquina, mas a motivação e a gratificação também o podem movimentar. Por outro lado, o sofrimento e a dificuldade conferem suposto valor ao trabalho dando-lhes legitimidade, ou seja, trabalho tem que ser trabalhoso.

Para o sistema funcionar dentro desta contradição interna, nutrir-se do consentimento, da resignação ou submissão não é o suficiente. Não é possível avaliar o impacto das falhas e das dissimulações da empresa real no nível global da empresa.

Existe uma cadeia de informações dentro da hierarquia para que a máquina não pare. A distorção da comunicação nos dois sentidos da hierarquia faz com que a descrição subjetiva dos gerentes seja falsificada e a mobiliza fazendo-a perdurar.

Retomando ao início, o estudo de Dejours não tem a intenção de buscar responsáveis ou culpados, mas sim trazer a discussão sobre a saúde psíquica do trabalhador à tona e diminuir a distância do espaço vazio entre o estudo da subjetividade e o economicismo.

4 – CONCLUSÃO

Dejour apresenta, de forma brilhante a dinâmica na questão do trabalho, que implica num conjunto de relações sociais nas empresas. Esta dinâmica, segundo o autor opera normalmente entre o sujeito (o ser humano no trabalho), a realidade (o ambiente, as condições, a organização do trabalho) e o ambiente econômico.

Fica claro que o grande trunfo do novo capitalismo, que o faz tão bem sucedido na sua implementação da política de banalização da injustiça social, é a precarização do trabalho, através da competição por um lugar no mercado.

Este novo contexto econômico envolve, pois, o Darwinismo social, a banalização do male o holocausto dos trabalhadores. No capitalismo moderno o lucro e o poder econômico são os objetivos. O econômico controla o poder político.

Deste modo, somos convidados a refletir sobre o discurso corrente da flexibilização das leis trabalhistas, que, semelhante ao processo de desregulamentação dos mercados financeiros norte-americanos, pode tornar-se a positivação da banalização da injustiça social e o sepultamento dos direitos humanos, no que concerne às relações de trabalho.

Aqueles que querem impor esta reforma, justificam seu pensamento pela lógica da desoneração dos custos das empresas e o atingimento de um grau maior de competitividade no contexto do mercado internacional, advogando com freqüência que as normas protetivas (no caso brasileiro a CLT), são culpadas pelo desemprego, pela miséria e pela injustiça social.

Nesse sentido, fica claro o comprometimento do estado com a precarização do trabalho, pois, ao percebermos a falta de uma política pública de atenção à saúde psicológica do trabalhador, notamos também uma forma institucionalizada de violência ao sujeito.

O novo capitalismo neste cenário se difere do nazismo apenas nos seus métodos, pois,enquanto no nazismo, como em outros sistemas políticos totalitários, a violência se impõe pelo terror e pela força, neste novo contexto econômico,a violência se dá pela intimidação e pela exclusão social.  Portanto, a questão crítica torna-se saber como essas inter-relações podem ser harmonizadas sem sofrimento humano e ou perda da “eficiência”.

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RESUMO DOS ARTIGOS: Consumer culture theory (CCT): twenty years of research. ARNOULD, E. J; THOMPSON, C. J. Journal of Consumer Research, v. 31, n. 4, p. 868-882, 2005. & Possessions and the extended self. BELK, R.W. Journal of Consumer Research, v. 15, n. 2, p. 139-168, 1988.

Por Holbein Menezes

1- CONSUMER CULTURE THEORY (CCT): TWENTY YEARS OF RESEARCH.

No artigo, os autores proveem uma síntese de vinte anos de pesquisa sobre consumidores analisando aspectos sociocultural, experiencial, simbólico e ideológico do consumo, sugerindo uma escola de estudo cunhada como “Teoria da Cultura do Consumidor” (CCT).

Para os autores, a teoria da cultura do consumo não é unificada, pois se refere a uma família de perspectivas teóricas que direcionam as relações dinâmicas entre ações de consumo, o mercado e significados culturais.

Mais do que ver a cultura como um sistema homogêneo de significados compartilhados coletivamente, os autores afirmam que a teoria da cultura do consumo explora a distribuição heterogênea dos significados e a multiplicidade de grupos e manifestações culturais que existem nas diversas formações sócio-históricas da globalização e do capitalismo.

Os autores se esmeram em defender que esta linha de pesquisa também conceitualiza um sistema interconectado de imagens, textos e objetos produzidos comercialmente que grupos utilizam, por meio da construção de práticas, identidades e significados sobrepostos para a criação de sentidos coletivos dos seus ambientes e para orientar as experiências e vidas de seus membros.

A CCT busca entender como os consumidores criam e alteram continuamente os significados simbólicos de seu consumo, contidos em marcas, propagandas e no próprio uso dos bens materiais, construindo expressões próprias de suas particularidades pessoais e sociais. São exploradas questões como a relação entre contextos culturais e sociais, os modos de interação entre consumidores e empresas e a construção, alteração e distribuição dos significados do consumo.

Em segundo lugar, a perspectiva da teoria da cultura do consumo tem sido desenvolvida tanto por meio de estudos empíricos, que analisam como manifestações particulares de cultura do consumo são constituídas, mantidas, transformadas e formatadas pelas forças históricas mais amplas (tais como narrativas culturais, mitos e ideologias), quanto embasada em circunstâncias socioeconômicas específicas e sistemas de mercado particulares.

Os autores defendem que dados qualitativos, bem como coleta e técnicas de análise de dados qualitativos têm sido usuais em estudos envolvendo cultura do consumo, uma vez que as dimensões experienciais e socioculturais do consumo não são plenamente acessíveis por meio de experimentos, “surveys” ou modelagens mais quantitativas.

Em suma, a teoria da cultura do consumo é organizada com base em uma série de questões teóricas atinentes ao relacionamento entre a identidade individual e coletiva dos consumidores: a cultura criada e corporificada no mundo vivido dos consumidores; processos e estruturas das experiências vivenciadas; e a natureza e o dinamismo das categorias sociológicas por meio das quais essa dinâmica da cultura do consumo é influenciada.

2 – POSSESSIONS AND THE EXTENDED SELF.

Neste artigo o entendimento sobre o comportamento consumidor passa, necessariamente, por uma analise sobre como se formam as dinâmicas subjacentes da relação de propriedade-identidade e suas manifestações idiossincráticas.

O autor divide sua analise em quatro classes de processo: (1) massa crítica de evidências, (2) funções ou usos originados da existência de um “Eu estendido”, (3) casos especiais ou manifestações que sugerem violação, mas podem ser compreendidas sob o prisma do eu estendido e (4) implicações ou manifestações gerais.

A extensão do “eu” ocorre através do controle e domínio de um objeto, através da criação de um objeto, do conhecimento do objeto, e por meio de impregnação de significados e proximidade e familiarização com objeto. O “Eu estendido” opera não apenas em nível individual, mas também em um nível coletivo envolvendo grupos, família, e identidades nacionais.

A compreensão do “eu” como um “eu estendido”, na medida em que os objetos passam a carregar um significado de memórias e sentimentos e dá sentido a narrativa de vida, é fundamental para a definição do “eu”.  Na medida em que nossa identidade não se resume ao “eu” individual, os objetos podem carregar também significados além do indivíduo, podem traduzir a identidade de pertencimento a um grupo.

Além do uso de bens de consumo comumente adquiridos, vários tipos de objetos são frequentemente utilizados, mas raramente pesquisados como objeto de posse: coleções, dinheiro, “outras pessoas”, animais e sinais particulares em partes do corpo. Em cada caso, há evidências de uma relação entre essas posses e o “eu” da pessoa.

Implicações deste comportamento foram então derivados, podendo-se identificar o ato de presentear, a substituição de consumo, doação de órgãos, disposição de produtos usados, e o papel do eu estendido na criação de sentido na vida.

Este conceito oferece uma maneira de explicar para presentear sem necessariamente recorrer a ao paradigma da premissa da troca, e também oferece perspectivas sobre as áreas de consumo relativamente inexploradas, como de animais de estimação, cuidados e manutenção de bens de consumo, a perda do produto e sua disposição, doação de órgãos, o consumo compartilhado e coleção de objetos de consumo.

Isso levanta questões importantes sobre o papel da posse em cada fase da vida, oferecendo uma perspectiva promissora da importância simbólica do consumo em nossas vidas.

3 – CONCLUSÃO

Partindo do conceito do “eu estendido”, podemos inferir que os objetos possuídos representam um depósito, onde está acumulado tempo, energia, dinheiro e vivencias. Todos esses acúmulos assumem as características do estilo de vida do consumidor, de sua identidade social e traduzem a narrativa de vida em forma de objetos.

O “eu” do indivíduo está inserido no objeto que ele possui, na medida em que revela traços do universo pessoal do consumidor, e o consumo, se mostra um instrumento privilegiado para a construção e reforço de uma identidade, ligado ao conhecimento, ao capital cultural, ao pertencimento a um grupo de pessoas e a significados com relação à própria vida e o tempo social onde o individuo está inserido.

Neste contexto, o consumo é irracional e simbólico (em oposição ao racional e ao utilitário), desde o processo de tomada de decisão e compra até o uso (exibição) do produto, podendo a cultura do consumo desempenhar um papel fundamental no processo.

A cultura de consumo é vista por Arnould e Thompson como um arranjo social em que as relações entre a cultura, recursos sociais, modos de vida e os recursos materiais e simbólicos de uma sociedade são mediados pelos mercados e os consumidores são parte de um sistema que interliga produtos e imagens, dos quais eles usam para construir identidades e orientar suas relações com os outros.

Para Senett, as mudanças nos modos de conceber a cultura, esta, num sentido antes antropológico do que artístico. Modificações que teriam suas origens na crise das instituições e no crescimento das desigualdades econômicas. Sob este aspecto, em que as instituições se fragmentam e as condições sociais se tornam instáveis, emerge um conjunto de desafios às subjetividades humanas.

Concluímos que os desafios impostos pela da fragmentação citada por Sennett em conjunto com a virtualização dos produtos e a internet, poderá inserir componentes desconhecidos a lógica analisada. Neste aspecto Kozinets (1999), estabelece o conceito do “e-tribalised marketing” ou “virtual communal marketing”.

Essencialmente, estes conceitos giram em torno da idéia de que na economia digital, “as redes são o que cria valor, e redes são normalmente criadas dando-se coisas sem custo”.

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RESUMO DO LIVRO: SENNETT, Richard, A cultura do novo capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 2006. P.11-79; 165-180

Por Holbein Menezes

1- INTRODUÇÃO

Com o intuito de contextualizar sua visão sobre a cultura do novo capitalismo, o autor nos leva a uma breve revisão histórica sobre o sistema econômico ocidental, seus pilares conceituais e sua evolução na base do tempo, fundamentando-se nos pensadores tradicionais que analisaram e o conceituaram.

Esta brevíssima, mas, importante excursão histórica, nos leva a perceber como as instituições que sustentaram a sociedade capitalista no inicio do século XX estão em transformação. As diferenças entre os novos e os velhos paradigmas se contrastam ao redor do conceito de burocracia, na forma concebida por Max Weber, como elemento central da sociedade capitalista.

Neste contexto maior, o autor analisa as mudanças nos modos de conceber a cultura, esta, num sentido antes antropológico do que artístico. Modificações que teriam suas origens na crise das instituições e no crescimento das desigualdades econômicas. Sob este aspecto, em que as instituições se fragmentam e as condições sociais se tornam instáveis, emerge um conjunto de desafios às subjetividades humanas.

O primeiro dos desafios diz respeito ao tempo, ou a uma relação de curto prazo. Quando as mudanças permanentes inviabilizam planejamentos de longo prazo, “o indivíduo pode ser obrigado a improvisar a narrativa de sua própria vida, e mesmo a se virar sem um sentimento constante de si mesmo”.

O segundo desafio diz respeito ao talento, ou a como desenvolver suas capacidades potenciais em uma cultura onde novas capacitações são exigidas a cada momento, onde “os trabalhadores precisam atualmente se reciclar a cada período de oito a doze anos”. Em lugar do artesanato, a cultura contemporânea impõe seu conceito de meritocracia que abre espaço para habilidades potencias em detrimento das realizações passadas

Em decorrência disto, identificamos o terceiro desafio, que enseja permitir que o passado fique para traz, criando uma espécie de “presentificação”, isto é, descartar as experiências já vividas. As modificações culturais desencadeadas no capitalismo contemporâneo impelem à busca de seres ideais: “uma individualidade voltada para o curto prazo, preocupada com as habilidades potenciais e disposta a abrir mão das experiências passadas”.

O estabelecimento deste paradigma cultural do novo capitalismo foi percebido através de pesquisas desenvolvidas pelo autor a partir da década de 1970 nos Estados Unidos. As mudanças estruturais descritas por Sennett não tem fronteiras nacionais, sendo notado que o declínio do emprego vitalício não deve ser identificado exclusivamente na América, igualmente, o fato é que o desmantelamento das grandes instituições não advém de uma mão invisível; “a nova economia continua apenas a ser uma pequena parte da economia como um todo. Ela efetivamente exerce profunda influencia moral e normativa, funcionando como padrão avançado da maneira como deve evoluir a economia de maneira geral”.

O autor nos convida a refletir sobre três temas: i – como as instituições vem mudando; ii – qual a relação do medo de se tornar supérfluo ou de se tornar ultrapassado em uma “sociedade da capacitação”; iii – em que o comportamento em relação ao consumo tem a ver com as atitudes políticas.

2 – BUROCRACIA

Segundo Sennett, as transformações das instituições modernas produziram efeitos colaterais no mercado de trabalho, e surgiram num momento em que as se multiplicaram as desigualdades, seja pelo “desaparecimento” dos modelos clássicos de emprego, seja pela globalização das economias. “Tudo o que é solido se desmancha no ar”, cita o autor se referindo a uma celebre formulação de Karl Marx sobre o capitalismo.

Desde a época de Marx a instabilidade parece ser a única constante do capitalismo. O sociólogo Joseph Schumpeter inclusive cunhou a famosa frase “Destruição Criativa” descrevendo sucintamente como um novo paradigma é estabelecido quando da destruição do anterior. Os estudos destes sociólogos permitiram a Max Weber no fim do século XIX compreender a organização capitalista como um mecanismo militarizado. Para Weber as corporações funcionam cada vez mais como exercito, onde todos possuem seu posto, e, cada posto sua função definida.

Segundo Weber, todas as formas de racionalização da vida institucional procedem originalmente de uma origem militar, cujas normas de fraternidade, autoridade e agressão tem caráter igualmente militar, embora os civis não tenham consciência de que pensam como soldados. Como economista político, Weber entende que o exercito constitui um modelo mais lógico da modernidade que o mercado.

Sob este aspecto, a burocracia se torna um modelo explicativo mais aperfeiçoado para o capitalismo do que o mercado. “O tempo está no cerne do capitalismo social militarizado: um tempo de longo prazo, cumulativo e, sobretudo, previsível. Esta imposição burocrática afeta tanto as instituições quanto os indivíduos”.

A organização deste modelo capitalista social concebido por Weber tornava possível uma previsibilidade em relação ao tempo: as pessoas podiam fazer de suas vidas narrativas estáveis e planejar em longo prazo suas carreiras profissionais. Sob o regime da estabilidade, essa organização capitalista organizava-se tal como uma pirâmide racionalizada. “A pirâmide é ‘racionalizada’, ou seja, cada posto, cada parte tem uma função definida”.

Sob esta ótica, é possível perceber que o modelo da pirâmide dominou as organizações, entre elas, o estado previdenciário. O sistema focalizava cada vez mais a estabilidade e a autopreservação institucional, deixando de lado a efetiva provisão de cuidados. A figura de retórica da “jaula de ferro” transmite a idéia de uma burocracia montada para dar estabilidade e solidez, podendo sobreviver a qualquer tormenta. “A contribuição de Weber neste aspecto se constituiu em conferir um contexto institucional ao impulso subjetivo”, onde se por um lado é uma prisão (a burocracia), a “jaula de ferro” também se constitui um lar psicológico.

Com o final do século XX, três mudanças importantes nas organizações tenderam a deslocar os sólidos pilares do capitalismo social militarizado. A primeira mudança foi o deslocamento do poder gerencial para o poder acionário, ou seja, uma transferência de poder dos grandes burocratas institucionais para os investidores, não raro, literalmente estrangeiros, e, muitas vezes indiferentes à cultura existente no interior das corporações forjadas ao longo do tempo por associações e alianças de longa vida.

A segunda mudança, em conexão com a anterior, é a preferência pelos resultados de curto prazo. Emerge a necessidade de mudanças permanentes, atualizações constantes e reengenharias – “reinventar-se continuamente ou perecer nos mercados”. Enormes pressões foram exercidas sobre as empresas para demonstrar mudanças e flexibilidade interna, parecendo muitas vezes tratar-se de instituições dinâmicas, ainda que funcionassem cotidianamente como grupos tradicionais moldados em perfeita harmonia com a época da estabilidade.

A terceira mudança que se defronta a “jaula de ferro” está no desenvolvimento das novas tecnologias, tornando instantâneas as comunicações em escala planetária e a manufatura. Com o aperfeiçoamento da tecnologia de comunicações, a informação pode ser transmitida de maneira intensiva e inequívoca desde sua origem por toda a corporação. Como consequência desta revolução, aconteceu a substituição da modulação e da interpretação das ordens por um novo tipo de centralização.

Essas três modificações serviram de condição para uma nova arquitetura institucional, diferente da sólida pirâmide do capitalismo social do século XX. O autor sugere uma nova imagem, a metáfora do tocador de MP3, que são modernos aparelhos reprodutores de musica que possibilitam a seleção do conteúdo aleatoriamente, utilizando alta capacidade de armazenamento e também estratégias de controle (o controle é conferido pela utilização de uma unidade central de processamento). Essa nova geografia do poder, produzida a partir da arquitetura “MP3”, evita a autoridade institucional e tem um baixo nível de capital social.

Weber observou que uma pessoa dotada de autoridade suscita obediência voluntaria, pois, seus subordinados acreditam nela. Para algumas pessoas, no entanto, a mistura de maior controle central e menor autoridade funciona muito bem. As organizações modernas desejam atrair jovens com espírito empreendedor que não tenham muita vontade de representar autoridade.

Os três déficits identificados pelo autor das mudanças estruturais são: baixo nível de lealdade institucional, diminuição da confiança informal entre os trabalhadores e enfraquecimento do conhecimento institucional. Estes níveis são colocados em prova nos momentos críticos dos ciclos econômicos.

3 – O CAPITALISMO SOCIAL EM NOSSA EPOCA

O autor identifica e examina três características principais do capitalismo contemporâneo, não apenas estabelecendo uma crítica, mas também analisando proposições alternativas a esses problemas em nosso tempo. Os três valores críticos examinados pelo sociólogo foram a narrativa, a utilidade e a perícia.

No que se refere à narrativa, o autor registra que, nas instituições do novo capitalismo, atuando em contextos temporais curtos e incertos, os sujeitos são privados de planejar sua vida em longo prazo, o que impossibilita a estabilidade de uma narrativa. Sennett aponta que, na atualidade, três movimentos colaboram para a desarticulação desse valor: a criação de instituições paralelas.

O papel do sindicato paralelo neste contexto busca transformar a experiência num fio narrativo, promovendo atividades para aqueles que ainda não estão grisalhos. Podem também ser notadas as soluções de compartilhamento de empregos, que permitem as pessoas equacionarem as relações família-trabalho e os programas de renda básica, que fornecem a cada jovem adulto uma soma de dinheiro para usar na educação, na compra de uma casa ou numa reserva para momentos conturbados.

Estas três vertentes estão voltadas para uma dura realidade, a insegurança não é apenas uma consequência indesejada das convulsões de mercado, estando na realidade programadas no novo modelo institucional.

Quanto à utilidade, o autor nos mostra os modos pelos quais a sombra da inutilidade se amplia no novo capitalismo. No entanto, o autor desloca o sentido de utilidade do trabalho formal para um significado mais amplo onde “sentir-se útil significa contribuir com algo de importância para os outros”. Isso permite classificar as participações voluntárias como alternativas de restabelecimento da utilidade dos sujeitos no novo capitalismo. A própria utilidade é mais que uma troca utilitária, trata-se de uma declaração simbólica relevante na medida em que partem da organização politica e social.

O terceiro valor crítico apontado pelo autor é a perícia, que representa o mais radical desafio em termos de políticas públicas nesta nova ordem. A perícia, segundo Sennett, restitui aos sujeitos um sentido de compromisso. Ela é a que mais desafia a individualidade idealizada pressuposta pelas instituições do trabalho, da educação e da politica. Há a necessidade de reação coletiva aos valores predominantes nesse novo capitalismo, sendo possível “que a revolta contra essa cultura debilitada seja a próxima página que vamos virar”.

4 – CONCLUSÃO

Como um efeito colateral de sua analise, percebemos que o autor joga uma luz nos fenômeno das redes sociais na internet, que embora não citada e tão pouco estudada nesta obra, pode muito bem estar desempenhando uma função social para suporte a narrativa da vida, carente nas instituições formais. O tempo, soberano, se encarregará de dirimir as duvidas a respeito deste tema e atribuirá a esta nova instituição virtual uma utilidade e capacidade de subliminarmente compensar as perdas de capital social do novo sistema econômico.

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O MARKETING E O COMPORTAMENTO DO CONSUMIDOR: UMA ANALISE DOS MODELOS INTEGRATIVOS DE CONSUMO.

Por Holbein Menezes

1-  INTRODUÇÃO

O propósito do marketing, na visão de Kotler (2000), é satisfazer as necessidades e os desejos dos clientes-alvo, neste aspecto, o estudo do comportamento do consumidor desempenha papel fundamental na busca do conhecimento da relação causal entre recursos aplicados nesta atividade e o consumo do bem ou serviço. Para o autor a opção do consumidor é diretamente influenciada por características culturais, pessoais e psicológicas.

Sobe a esta ótica, Kotler (2000) reconhece que o estudo da dinâmica dos indivíduos, grupos ou organizações na seleção, compra, uso e descarte de bens e serviços, para satisfazer suas necessidades e desejos, é indispensável para o estabelecimento de estratégias apropriadas de abordagem aos clientes.

Para Barbosa e Campbell (2006) cultura e consumo possibilitam uma interconexão de estudos interdisciplinares entre as ciências sociais e humanas, onde a relação entre cultura e consumo possibilita entender o consumo como um processo social que produz sentidos e identidades independentemente da aquisição de um bem.

Portanto, o estudo do comportamento do consumidor necessita combinar elementos da psicologia, sociologia, economia e antropologia social, buscando compreender o processo de tomada de decisão do comprador, tanto individualmente como em grupo.

Para Du Pin (2011), o comportamento de consumo do homem contemporâneo vem sendo alterado pelas mudanças tecnológicas que estão ocorrendo no mundo. A inovação tecnológica e as condições econômicas e sociais modernas vêm abrindo espaço para que ambientes virtuais atuem na formação dos significados dos bens de consumo.

Castells (REBELO, 2012) no final da década de 1990 já predizia que as tecnologias da informação remodelariam a base material da sociedade em ritmo veloz, e que as redes interativas de computadores expandiriam exponencialmente sua base, propiciando deste modo novas formas e canais de comunicação, conseqüentemente, moldando o estilo de vida da população e, simultaneamente, criando convergência entre mídias.

2 – O COMPORTAMENTO DO CONSUMIDOR

O estudo do comportamento do consumidor é uma disciplina relativamente recente, os primeiros trabalhos datam da década de 60 (MOWEN e MINOR, 2003 Apud ARAÚJO e SILVA). Entender o comportamento do consumidor é  fundamental para os profissionais de marketing, já que um dos principais conceitos do marketing diz que as empresas existem para satisfazer as necessidades dos consumidores (KOTLER, 2000).

Porém, estas necessidades só podem ser satisfeitas se os profissionais de marketing puderem compreender as pessoas e/ou grupos que utilizarão dos produtos e  serviços que eles representam como gestores.

“O comportamento de compra do consumidor é influenciado por fatores culturais, sociais, pessoais e psicológicos. Os fatores culturais exercem a maior e mais profunda influência.” (KOTLER, 2000, p.183)

Para Mowen e Minor (ARAUJO E SILVA, 2006) “o comportamento do consumidor compreende o estudo das unidades compradoras e dos processos de troca envolvidos na aquisição, no consumo e na disposição de mercadorias, serviços, experiências e idéias”.

Para Solomon (ARAUJO E SILVA, 2006), “o comportamento do consumidor é entendido como o estudo dos processos envolvidos quando indivíduos ou grupos selecionam, compram, usam ou dispõem de produtos, serviços, idéias ou experiências para satisfazer necessidades e desejos”.

Para Schiffman e Kanuk (ARAUJO E SILVA, 2006) a área do comportamento do consumidor estuda “como os indivíduos tomam decisões de gastar seus recursos disponíveis (tempo, dinheiro, esforço) em itens relacionados ao consumo. O comportamento do consumidor engloba o estudo de o que compram, por que compram, quando compram, onde compram com que freqüência compra e com que freqüência usa o que compram”.

Para Tuck (2006, ARAUJO E SILVA, 2006) o comportamento do consumidor é uma tentativa dos profissionais de marketing de compreenderem o comportamento de escolha no mercado. Por outro lado, na visão de Churchill e Peter (2003), o comportamento do consumidor pode ser entendido como pensamentos, sentimentos e ações dos consumidores e as influências sobre eles que determinam mudanças.

Mowen e Minor (ARAUJO E SILVA, 2006) concluem que as limitações do processo tradicional de decisão do consumidor fizeram com que os pesquisadores propusessem modelos alternativos de tomada de decisão nos quais foram inseridos diferentes níveis de ênfase em cada um dos estágios identificados no modelo genérico.

Du Pin (2011) entende que em essência, as compras têm significados diferentes para diferentes pessoas em diferentes ocasiões, implicando que reconhecer a natureza heterogênea dos consumidores é fundamental para o desenvolvimento de uma proposta de valor que assegure a satisfação e a fidelização do cliente.

Com o intuito de simplificar uma realidade extremamente complexa, estudiosos das relações de consumo, idealizaram modelos do comportamento do consumidor, permitindo que se faça a distinção e compreensão das diferentes fases do processo decisório na tentativa de prever o comportamento futuro.

3 – MODELOS CONCEITUAIS DE CONSUMO

Um modelo é uma representação mais ou menos fiel, mas sempre simplificada, de um fenômeno ou de um sistema complexo para propiciar uma melhor compreensão de fenômenos, o que possibilita uma melhor atuação sobre ele. Para a compreensão do comportamento do consumidor, é fundamental partir de modelos conceituais de estimulo a resposta.

Uma busca por trabalhos acadêmicos sobre este tema retorna uma importante contribuição de Lunn (FERREIRA, 2006), que caracterizou três enfoques para sustentação de analises do comportamento do consumidor, utilizando abordagens apriorística, empírica e eclética.

Segundo Ferreira (2006), a abordagem apriorística introduz conceitos e teorias de outras disciplinas, principalmente das ciências do comportamento, para entender o consumidor e cita entre outras as varias manifestações da pesquisa motivacional e teorias de atitudes (FISHBEIN, 1966).

Os pesquisadores que utilizam a abordagem empírica, segundo Ferreira (2006),  adotam comportamento inverso, ou seja, eles procuram estabelecer leis a partir da observação de padrões de regularidades no comportamento de consumo e utilizam, usualmente, dados obtidos em painéis de consumidores. Segundo o autor, um expoente desta abordagem é Ehrenberrg (1970).

Usando distribuição binomial negativa e sua aproximação simplificada, a distribuição de séries logarítmicas, Ehrenberg  (1970) mostrou que os vários índices de compras repetitivas seguem padrões regulares cuja generalização abrange um largo espectro de marcas, produtos, períodos de tempo e outras condições.

Mais recentemente, entretanto, a abordagem eclética, mais abrangente, se tornou popular. Ela basicamente procura incorporar as qualidades das abordagens apriorística e empírica, contudo, busca evitar suas falhas. O que a distingue das demais é a síntese é o apoio nas teorias, conceitos e descobertas das varias ciências do comportamento, e, as descobertas específicas provenientes dos estudos das pesquisas de mercado.

Diversos modelos de comportamento do consumidor foram elaborados com a abordagem eclética, entre os quais Ferreira (2006) cita Nicosia (1966), Howard e Sheth (1969) e Engel, Kollat e Blackwell (1973).  Vários autores (Goldstein & Almeida, 2000; Minciotti, 1987; Karsaklian, 2000) apontam estes três modelos de comportamento do consumidor como os mais completos e abrangentes.

Nicosia (apud Karsaklian, 2000) analisa as decisões de um consumidor como originarias de um processo que é possìvel de ser desmembrado em campos de atividade, que por sua vez são subdivididos em subcampos. Assim, o campo de ação da compra resulta de uma atividade de pesquisa e de avaliação da informação, precedida pela exposição a uma mensagem, quase sempre publicitária.

O modelo de Howard e Sheth (apud Karsaklian, 2000) segue a escola behaviorista, uma vez que tenta explicar a forma como um consumidor transforma, por meio de mecanismos de aprendizagem, os inputs (estímulos de marketing) em outputs (decisões de compra).

O modelo de Engel, Kollat e Blackwell (apud Karsaklian, 2000) apresenta as características de um modelo teórico científico. Propõe uma estrutura explicativa do comportamento de escolha que é influenciado por um conjunto complexo de fatores, que são divididos em três grupos: a) diferenças individuais: recursos do consumidor, conhecimento, atitudes, motivação, personalidade, valores e estilo de vida; b) influências ambientais: cultura, classe social, influência pessoal, família e situação; e c) processos psicológicos: processamento de informação, aprendizagem e mudança de atitude e comportamento.

Para Goldstein e Almeida (2000), a utilidade dos modelos conceituais é mais didático-pedagógica do que pratica, pois, servem como uma base qualitativa para a compreensão do comportamento do consumidor como um processo, mas pouco auxilia na sua previsão em algum caso específico.

Eles entendem que o principal mérito de Nicosia advém do pioneirismo quanto ao desenvolvimento de um modelo integrativo, enquanto o modelo Engel-Kollat-Blackwell possui sua maior virtude na abrangência e na sua aplicabilidade como ferramenta pedagógica. Com relação aos modelos criados nas décadas de 60 e 70, o de Howard- Sheth, com base no aprendizado, é o que mais atende aos critérios estabelecidos para a análise dos modelos.

Segundo Kozinets (1999 Apud Du Pin), os computadores em rede provocam enormes mudanças sociais. Esse autor evidencia que os computadores em rede “capacitam os indivíduos ao redor do mundo, sem limitações geográficas e de tempo a se reunirem em grupos com base em uma ampla gama de interesses culturais, subculturais e afiliações sociais”. Ainda de acordo com esse autor, “Muitas dessas afiliações baseiam-se em atividades de consumo” (p. 252).

A inovação tecnológica e as condições econômicas e sociais, segundo Sales e França Filho (2011), abriram espaço para que as redes de relacionamentos atuassem na formação dos significados dos bens de consumo, atividade antes desempenhada unicamente por canais convencionais.

Kotler, em seu recente estudo de Marketing 3.0, salienta que:

“ao contrário do que acontece no Japão, onde 74% dos usuários de Internet lêem blogs, nos Estados Unidos somente 27% dos usuários de Internet o fazem. Embora o número de usuários seja baixo, 34% dos leitores de blogs nos Estados Unidos são formadores de opinião. (…) Seth Godin, conhecido profissional de marketing, tem um famoso site que apresenta uma ideia nova por dia para influenciar milhares de pessoas que optarem por receber seu feed.” (KOTLER, 2010, p. 8)

A tecnologia da rede de computadores mudou toda a forma da comunicação e da troca de experiências, culturas e valores, o que fere o cerne das analises clássicas do comportamento do consumidor.

Sistemas informatizados para recomendação de compra estão sendo usados na atualidade para mapear o comportamento do consumidor contemporâneo que  participa de  redes sociais ou utilizam ambientes virtuais de compra, coletando de maneira invisível para o usuário, os dados sobre consumo.  Isto possibilita análises das informações coletadas através da filtragem dos dados disponíveis com ferramentas estatísticas para  criação de arquétipos de consumidores (JUNIOR e OLIVEIRA, 2009).

4 – CONCLUSÃO

No mundo atual, competitivo e complexo, é cada vez mais importante estar próximo ao consumidor, atendendo a seus desejos e necessidades. Estabelecer uma relação duradoura e compreender os segredos do comportamento do consumidor são armas valiosas.

Entretanto, o sistema de moda é para McCracken (1988) um dos dois processos através dos quais a moderna sociedade ocidental impregna os bens de consumo com os significados que constituem o mundo culturalmente constituído. O outro processo responsável por tal operação é o sistema de publicidade (SALES e FRANÇA FILHO, 2006).

Em a galáxia de Gutemberg (1972), McLuhan identifica as tecnologias como extensões do homem, dos seus sentidos e suas formas de ser, oferecendo uma explicação da transformação do homem da cultura oral e manuscrita no homem da cultura tipográfica e moderna, e nos traça um paralelo a mudança irremediável imposta ao consumidor moderno.

Para Shen (2002) e Anderson (2008), a capacidade das redes sociais e das demais novas mídias de registrar os hábitos de seus usuários para criação de ofertas customizadas de alto valor agregado estimula questionamentos sobre o controle da privacidade (RODRIGUES et al., 2012)

Em um campo tão vasto e difuso como o do comportamento do consumidor, modelos que simplifiquem a compreensão da realidade, mas que ao mesmo tempo possuam abrangência suficiente para que os principais fatores intervenientes e suas interações estejam claramente identificados, são de extrema importância.

Certamente o perfil do consumidor contemporaneo exigirá a compreensão de nuances diferentes das observadas até o momento. Este desafio demandará abordagens distintas das já estudadas para as futuras estratégias de pesquisa e desenvolvimento dos modelos conceituais de consumo para criação de novos mercados, além de tudo isto, a economia em redes deverá inserir variáveis jamais previstas nos processos de consumo.

Kozinets (1999), inclusive, propõe uma série de medidas dentro de uma abordagem chamada por ele de “e-tribalised marketing” ou “virtual communal marketing”. Essencialmente, todas elas giram em torno da idéia de que na economia digital, “as redes são o que cria valor, e redes são normalmente criadas dando-se coisas [sem cobrança]” (SALES e FRANÇA FILHO, 2006).

Concluímos que neste ambiente competitivo do novo século, o processo de globalização rompeu as fronteiras econômicas e culturais dos países, e, adicionados os efeitos da internet, que acelera exponencialmente a propagação das tendências e valores, e adiciona uma volatilidade inacreditável a vida dos produtos.

Este novo paradigma propiciou o aumento do poder relativo dos consumidores frente às corporações, que interessadas em atingir o consumidor on-line, cada vez mais importante, devem refletir sobre um mote não tão novo assim: transformar seus clientes em parceiros, o que alterará profundamente os conceitos de consumo moderno.

4 – REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO

ARAÚJO, M. V .P. e SILVA, S. M. Pesquisa de mercado do comportamento do consumidor de produtos alimentícios de marcas próprias em uma empresa varejista mundial em Natal/RN. In: XIII SIMPEP, 2006. Anais… Bauru, 2006.

DU PIN, S. G. C. A influência das redes digitais na busca de informação e no processo de decisão de compra do consumidor. 2011. 145 f. Dissertação de mestrado (Mestrado em Administração e Desenvolvimento Empresarial) – MADE, Universidade Estácio de Sá. Rio de Janeiro, 2011.

FERREIRA, P. F. Hábitos de Consumo de Vinho: Uma Pesquisa sobre Ocasiões, Locais, Motivações e Freqüência.  2006. 119 f. Dissertação de Mestrado (Departamento de Administração) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2006.

JUNIOR, C. V. B e OLIVEIRA, A. O. Sistemas de recomendação em redes sociais. VIII CONTESI – International Conference on Information System and Technology Management, 2011. Anais …. São Paulo, 2011.

KARSAKLIAN, Eliane. Comportamento do consumidor – São Paulo: Atlas, 2000

KOTLER, P. Administração de Marketing – 10ª Edição, São Paulo: Prentice Hall, 2000.

KOTLER, P. Marketing 3.0. Editora Campus, 2010.

LOPEZ, E. L. e SILVA, D. Modelos integrativos do comportamento do consumidor: uma revisão teórica. REMark – Revista Brasileira de Marketing, São Paulo, v. 10, n. 3, p. 03-23, set./dez. 2011.

MCLUHAN, M.  A galáxia de Gutemberg – São Paulo, Companhia Ed. Nacional, Edusp, 1972.

REBELLO, T. C. S. Processos de consumo em redes sociais: O aplicativo Likestore. DAMT: DESIGN, ARTE, MODA e TECNOLOGIA. São Paulo, n. 7, p. 402 – 416, Nov. 2011.

SALES, R. H. T. B. e FRANÇA FILHO, G. C. Manufatura e Movimento de Significados no Mundo da Internet: Uma Exploração Netnográfica do Papel das Comunidades On-Line. In: XXX Encontro da ANPAD, Anais … Salvador, 2006.

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DINAMICA DA ACUMULAÇÃO DE CAPACIDADES INOVADORAS: EVIDENCIAS DE EMPRESAS DE SOFTWARE NO RIO DE JANEIRO E EM SÃO PAULO

Fichamento do Artigo publicado em: Revista (edição): RAE-revista de administração de empresas – VOL 50, N° 1 jan/mar 2010. ISSN 2178-938X http://rae.fgv.br/ – Ciências Sociais Aplicadas

Por Holbein Menezes

1 – Objetivo principal: Analisar a dinâmica de acumulação de capacidades inovadoras relacionadas com as dimensões de direção e velocidade de acumulação destas capacidades, em oito empresas de software do Rio de Janeiro e de São Paulo, durante o período de 1990 a 2005 através do desenvolvimento de pesquisa de campo.

2 – Objetivos intermediários:

Classificar as empresas estudadas em níveis específicos de capacidades tecnológicas;

  • Identificar as diferenças inter e intraempresarias em termos da direção e taxa de acumulação de capacidades para funções tecnológicas especificas dentro da empresa;
  • Identificar se a taxa de acumulo de capacidades tecnológicas é mais rápida em empresas mais jovens;
  • Identificar se há decréscimo da taxa de acumulação tecnológica na medida em que estas empresas se aproximam de níveis mais inovadores de capacidade.

3 – Relação entre o tema escolhido e o artigo:

             Na década de 70, quando a crise do petróleo desencadeou recessão nos EUA e em outros países industrializados, a economia Japonesa e de alguns países asiáticos, iniciaram uma fase de crescimento alcançando a fronteira da tecnologia internacional.

Neste período se compartilhava a visão que empresas de países em desenvolvimento estavam envolvidas exclusivamente na seleção e adoção das tecnologias já desenvolvidas nos países industrializados, desempenhando um papel exclusivamente passivo no processo do desenvolvimento tecnológico, portanto, o desenvolvimento de capacidades tecnológicas oriundas destas regiões era considerada irrelevante.

Em oposição a este paradigma, estudos empíricos que adotaram uma perspectiva dinâmica da tecnologia nas empresas da America latina, e posteriormente Ásia, passando a examinar os vários mecanismos pelos quais as empresas adquiriam o conhecimento técnico para acumular suas capacidades tecnológicas inovadoras ao longo do tempo.

No artigo, os autores definiram capacidade tecnológica como recursos necessários para gerar e gerenciar atividades inovadoras em produtos, processos, sistemas organizacionais, equipamentos e engenharia de projetos. Para eles, estes recursos estão incorporados não apenas nos indivíduos, mas, principalmente, no sistema organizacional. Sob este prisma, a inovação é também definida como implementação de idéias criativas dentro de uma organização.

Criatividade de indivíduos e grupos é o ponto de partida para inovação, portanto, uma condição necessária para inovar, contudo, não é o suficiente para a inovação, assim, a criatividade deve ser mostrada por pessoas, todavia, a inovação ocorre apenas no contexto organizacional (AMABILE, 1996).

Na perspectiva de Schumpeter (1942), de fato, a inovação vai além da mudança tecnológica no sentido estrito. Envolve a “condução de novas combinações” interpretada de maneira ampla. Este conceito cobre os casos: i) a introdução de um  novo bem ou serviço; ii) introdução de um novo método de produção ainda não testado; iii) abertura de um novo mercado ainda inédito para a empresa; iv) a conquista de uma nova fonte de matéria-prima. Um dos critérios chaves para o sucesso de uma inovação é o sucesso comercial.

Desta maneira, os autores basearam suas conclusões numa idéia ampla de inovação, que deve ser novo no contexto local, mas não necessariamente novo em sistemas globais. Esta perspectiva de inovação como um contínuo de atividades é particularmente importante para contextualização da inovação no ambiente dos países em desenvolvimento.

Para analisar as capacidades tecnológicas acumuladas em oito empresas de software estudadas do Rio de Janeiro e São Paulo, foi criada uma matriz dispondo as funções tecnológicas em colunas e níveis de complexidade em linhas.

No setor de tecnologia da informação, a certificação conhecida com “Capability Maturity Model” (CMM), elaborada pelo “Software Engineering Institute” (SEI), é usada varias vezes como medida de acumulação de capacidades tecnológicas. Este modelo avalia a maturidade do processo de engenharia de software em empresas e o classifica em cinco níveis.

Devido sua origem, o CMM mantém foco na capacidade da empresa em cumprir prazos e garantir a qualidade final, conseqüentemente, subavaliando outras importantes capacidades tecnológicas para que uma empresa de software seja considerada inovadora.

O estudo que deu origem ao artigo, propôs examinar o aspecto da dinâmica do processo de acumulação de capacidades tecnológicas em nível de empresas. Para aprofundar o entendimento sobre a natureza desse processo, e gerar uma conceituação analítica. O estudo foi fundamentado na base de estudo de caso (PATTO, 2003).

Para consecução do trabalho, foi deliberadamente selecionado um conjunto de empresas do setor de software nas duas maiores capitais brasileiras. O critério de seleção baseou-se na idéia de explorar a diversidade da dinâmica do processo de acumulação de capacidades tecnológicas. A pesquisa baseou-se em evidências qualitativas e quantitativas de primeira mão colhidas pessoalmente por meio extensivos trabalhos de campo.

 4 – Questões:

 1 – Qual a importância dos processos subjacentes de aprendizagem no modo e velocidade de acumulação de capacidades tecnológicas?

2 – O estudo não sugeriu qualquer tipo de taxa de acumulação de capacidades tecnológicas melhores ou corretas baseadas em fatores históricos ou comparativos, contudo, não seria importante investigar a variedade presente nas trajetórias de desenvolvimento tecnológico em termos de modo e velocidade.?

3 – Qual seria o melhor conceito de taxas de retorno do aprendizado, de modo a atender expectativa de investidores, gestores públicos e executivos corporativos, relacionando os custos reais do aprendizado com a contrapartida econômico-financeira?

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ANÁLISE CRÍTICA DOS ARTIGOS: MIOPIA EM MARKETING, CRIANDO NOVOS MERCADOS E INOVAÇÃO CENTRADA NO CLIENTE.

1-    Miopia em marketing

 No artigo “Miopia em marketing”, Levitt (1960) analisa o fracasso de algumas indústrias, realçando o sucesso passado desfrutado por longos ciclos e o foco exagerado em produtos em detrimento da criação de valor para o cliente, fenômeno o qual o autor batiza de miopia em marketing.

Para o autor, as empresas que desenvolvem uma visão estreita da sua missão no mercado, principalmente quando bem sucedidas e durante períodos de rápida prosperidade econômica, não conseguem perceber os riscos oriundos dos produtos substitutos que, de forma disruptiva, colocam em risco o sucesso futuro.

Usando os exemplos das indústrias de petróleo e eletrônica, o autor nos guia através da experiência, não tão recente, destes segmentos e do sucesso aparentemente irreversível por elas gozado. Em contra ponto, mostra também o risco de obsolescência de seus produtos, comparando-os suas trajetórias ao negócio das estradas de ferro, que no início do século desfrutou de semelhante solidez e de um sucesso financeiro aparentemente impossível de findar.

Na visão de Levitt, a orientação exagerada ao produto é a causa do declínio de muitas indústrias que experimentaram o sucesso por longos períodos. Ele identifica um padrão de comportamento, o qual chama de “ciclo auto-ilusório”, determinado por quatro condições, sendo elas: i – a crença de que o crescimento é assegurado por uma população em expansão; ii – a crença de que não existe um substituto competitivo para o principal produto da empresa; iii –  o excesso de fé na produção em massa e nas vantagens do rápido declínio do custo unitário com o aumento da produção; iv –  a preocupação com um produto que se preste à experimentação científica cuidadosamente controlada, ao aperfeiçoamento e à redução dos custos de produção.

Em síntese, o autor enfatiza que a organização necessita entender sua função na relação do consumo do seu produto, colocando em perspectiva o valor atribuído a este pelos seus clientes e consumidores. Sob este prisma, é fundamental que seus dirigentes estejam sempre atentos às necessidades explícitas, implícitas e latentes daqueles que consomem seus produtos, procurando identificar as variáveis que motivarão as pessoas a desejar fazer negócios com ela, e trazer para dentro da empresa o cliente, seus anseios e necessidades.

2 – Criando novos espaços no mercado

 Kim e Maubourgne (1999) mostram em seu artigo “New Market Place” que muitas empresas modernas orientam seu modelo de gestão conforme um padrão de comparação com seus rivais, no processo de competição. Por consequência disso, acabam adotando estratégias cada vez mais semelhantes a dos concorrentes. Esta característica acaba gerando uma competição cada vez mais acirrada, que se baseia grandemente em melhorias incrementais de custo e qualidade.

Na raiz deste fenômeno pode-se perceber um conjunto implícito de crenças semelhantes entre os atores de uma mesma indústria. Esta igualdade de fundamentos se dá em função de a sabedoria compartilhada sobre quem são os clientes e o que eles valorizam nos produtos e serviços oferecidos daquele segmento. Quanto mais essas empresas competem, mais compartilham suas visões e maior é a convergência competitiva.

Os autores analisaram o padrão das empresas que de forma bem sucedida criaram novos mercados em seus segmentos, e encontraram seis abordagens básicas descritas no quadro 1, sendo todas baseadas na análise dos dados habituais. Sob diferentes perspectivas, porém, surpreendentemente não perceberam a necessidade de qualquer habilidade ou talento especial para premonições de futuro.

Criar novos mercados parece requerer um pensamento estratégico diferente, que ao invés do habitual padrão de analisar as características dos competidores diretos, requer uma análise mais ampla além das fronteiras dos seus mercados. Num sentido mais amplo, existe competição entre mercados de produtos diferentes, onde os consumidores comparam suas experiências de consumo durante o processo de aquisição de diferentes produtos e serviços.

Inovar ou criar novos mercados parece ser a carta de alforria das empresas presas a este ciclo vicioso da competição. Contudo, segundo os autores, para inovar é necessário criar valor para aqueles que utilizam os produtos ou serviços e não simplesmente especificar uma carta de novos atributos. Além disto, comumente as áreas de pesquisa e desenvolvimento estão demasiadamente focadas no produto, não percebendo necessidades periféricas e desejos latentes de consumo. Através desta visão ampla das fronteiras do mercado, torna-se necessário “pensar fora da caixa”.

Fronteiras convencionais da competição

Competição direta e acirrada

Criando um novo mercado

Setor

Foco em rivais dentro do seu setor. Procura de oportunidades em setores substitutos.

Grupo estratégico

Foco em posição competitiva dentro do grupo estratégico. Procura entre grupos estratégicos dentro do setor.

Grupo de compradores

Foco em melhor atendimento do grupo de compradores. Redefine o grupo de compradores do setor.

Atributos dos produtos e oferta de serviços

Foco em maximizar o valor a oferta de produtos dentro dos limites do setor. Procura por ofertas complementares de produtos e serviços além das fronteiras do setor.

Orientação Funcional/Emocional de um setor

Foco na melhoria de preço e desempenho em linha com a orientação funcional e emocional do setor. Repensa a orientação funcional e emocional do seu setor

Tempo

Foco em adaptação a tendências externas à medida que elas ocorrem. Participa da formação de tendências externas ao longo do tempo.

Quadro 1 – Da competição a criação de novo espaço de mercado.

 Deste modo, podemos inferir que para buscar a inovação e agregar valor ao modelo do negócio, as empresas devem buscar as oportunidades entre setores substitutos; entre grupos estratégicos dentro de setores; ao longo da cadeia de compradores; entre ofertas complementares de produtos ou serviços; entre possibilidades de apelo funcional ou emocional para os compradores e, de forma resiliente, buscar a inovação ao longo do tempo.

 3 – Inovações centradas no cliente

 Envolver os clientes no processo de inovação implica numa série de novas preocupações, conceitos, decisões gerenciais e mudanças de cultura empresarial. No artigo “Manage customer centric Innovation systematically”, Selden e MacMillan (2006) propõem um modelo de inovação centrada no cliente, sugerindo como envolver os consumidores no processo de inovação e criação de novos produtos, além de oferecer orientações para a mudança da estrutura organizacional, com ênfase na inovação orientada para o cliente, com o propósito de permitir a inovação contínua e sustentável.

No centro do modelo proposto está a atividade de pesquisa e desenvolvimento de produtos e serviços, que tradicionalmente reúne, em um ambiente, engenheiros e desenhistas com alta especialização em tecnologia, que no modelo proposto passa a ter um alto foco na percepção das necessidades e desejos dos clientes. Desenvolver uma nova experiência deve estar no “espírito” de cada membro desta nova equipe.

Empresas que disciplinadamente orientam seu processo de pesquisa e desenvolvimento para o foco no cliente ganham benefícios estratégicos sobre o valor percebido pelo cliente sobre seus produtos, o que, via de circunstância, passa despercebido para aos seus concorrentes, possibilitando deste modo o bloqueio das inovações disruptivas. Quanto mais orientadas ao cliente estas empresas forem, mais tempo toma dos competidores para perceberem as variáveis da competição, consequentemente, melhores são suas chances de manutenção da liderança.

A inovação centrada no cliente não demanda aumento nos investimentos de pesquisa e desenvolvimento, ao contrário, os autores sugerem que os mesmos recursos destinados à pesquisa e desenvolvimento nos ambientes tradicionais sejam aplicados no novo modelo de desenvolvimento. Entretanto, os autores não esperam que esta mudança de paradigma aconteça da noite para o dia e muito menos que surtem efeitos imediatos.

Para a implantação desta estratégia, eles sugerem como primeiro passo a identificação de um grupo principal de clientes a fim de desenvolver propostas mutuamente benéficas e que excedam as expectativas deles. O segundo passo seria, então, estender as capacidades, percebendo os aspectos intangíveis do uso dos produtos, ampliando a experiência de consumo para além dos “casulos” e estender também os seguimentos através da ampliação da base de clientes, com a descoberta de potenciais halos de necessidades similares a da base dos clientes regulares, os quais podem ser similares em novos grupos.

Finalmente após a empresa ampliar seus negócios, ela deverá começar novamente a buscar oportunidades em duas direções: ampliação das capacidades e ampliação dos segmentos, num ciclo contínuo e virtuoso de aprendizado. Contudo, durante todo o processo de transformação e readaptação de sua estratégia de pesquisa e desenvolvimento, deve-se estar alerta às ameaças disrupitivas que podem surgir de todas as partes, pois, mudanças na percepção de valor dos clientes podem ser abruptas e reações tardias costumam ser danosas.

4 – Conclusão

 No cerne da discussão suscitada pelos autores dos três artigos está a percepção da criação de valor por parte do cliente, tendo em vista que o processo concorrencial é caracterizado pelo desequilíbrio provocado pela incessante movimentação dos atores nos diferentes mercados. Tanto a concorrência quanto a luta por competitividade são intrínsecas ao capitalismo, passando o valor percebido a significar vantagem competitiva num ambiente de extrema competição.

Os “sobreviventes” no mercado competitivo dependerão sempre das melhores estratégias e de suas capacitações tecnológicas, que normalmente são determinantes na conquista do sucesso em vendas. Entretanto, se não houver a tradução das necessidades, dos desejos e principalmente da experiência de consumo dos clientes no desenvolvimento das estratégias e dos produtos, o sucesso se tornará sempre fugaz.

Em “A galáxia de Gutemberg” (1972), McLuhan identifica as tecnologias como extensões do homem, dos seus sentidos e suas formas de ser, oferecendo uma explicação da transformação do homem da cultura oral e manuscrita no homem da cultura tipográfica e moderna, traçando um paralelo à mudança irremediável imposta ao consumidor moderno. Consumidor esse que não tolerará comprar o que não deseja e que numa fração de tempo, comparará atributos, preço e experiência de consumo entre indústrias totalmente distintas, criando um desequilíbrio desproporcional entre valor percebido e valor especificado.

Certamente o perfil do consumidor do novo milênio exigirá das empresas habilidades diferentes das percebidas por Levitt em meados do século XX, e demandará abordagens mais agressivas nas estratégias de pesquisa e desenvolvimento das empresas do que as propostas por Kim e Maubourgne para criação de novos mercados. Além disso, a volatilidade deverá inserir um alto grau de risco no envolvimento do cliente nas decisões estratégicas das indústrias.

Concluímos que no ambiente competitivo do novo século, onde se pode perceber que o processo de globalização rompeu as fronteiras econômicas e culturais dos países, e, adicionados os efeitos da internet, que acelera exponencialmente a propagação das tendências e valores, adicionando volatilidade inacreditável à vida dos produtos, é fundamental manter a percepção do cliente sobre o valor dos produtos e serviços como objetivo primário das empresas, bem como o desenvolvimento de estratégia de gestão de pesquisa e desenvolvimento alinhada ao objetivo principal, sem deixar de prestar atenção aos diferentes mercados e produtos substitutos e complementares.

4 – Bibliografia

 KIM, W.C; MAUBOURGNE, R. Creating new market space – Harvard Business Review, fev. 1999.

LEVITT, T.  Miopia em marketing – Harvard Business Review, ago.1960.

MCLUHAN, M. A galáxia de Gutemberg – São Paulo, Companhia Ed. Nacional, Edusp, 1972.

SELDEN, L; MACMILLAN, I, C. Manage customer centric Innovation systematically – Harvard Business Review, abr. 2006.

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TÉCNICA DELPHI: IDENTIFICANDO AS COMPETÊNCIAS GERAIS DO MÉDICO E DO ENFERMEIRO QUE ATUAM EM ATENÇÃO PRIMÁRIA DE SAÚDE.

Revista (edição): Rev.Esc.Enf.USP. v.33, n.3. p. 207- 16. Set. 1999 – Ciências Sociais Aplicadas

Autores do artigo: Roseli Ferreira da Silva, Oswaldo Yoshimi Tanaka

Fichado por: Holbein Oliveira de Menezes Filho – Tuma: 2012.1

1 – Tema: Competência profissional. Cuidados primários de saúde.

2 – Objetivo principal e objetivos intermediários da pesquisa objeto do artigo:

1 – Objetivo principal: Identificar as competências gerais do médico e do enfermeiro que atuam em atenção primária de saúde em Marília, estado de São Paulo.

2 – Objetivos intermediários:

  • Sugerir aos planejadores curriculares e docentes envolvidos no planejamento da formação do profissional da saúde, as competências necessárias ao processo formação de médicos e enfermeiros;
  • Estabelecer publicamente o que os membros de uma profissão estão habilitados a fazer e o que o público pode esperar deles;

3 – Relação entre o tema escolhido e o artigo:

             O método Delphi é um método sistemático e interativo de estimativa que se baseia na experiência independente de vários especialistas. Os especialistas são cuidadosamente selecionados pela sua experiência e respondem a um questionário em um ou mais ciclos. Após cada ciclo, um facilitador provê um sumário anônimo das estimativas de cada especialista no ciclo, bem como as razões sobre as quais cada um baseou sua estimativa. Os especialistas são então encorajados a revisar suas estimativas anteriores com base nas opiniões dos demais participantes. Busca-se durante este processo que ocorra uma convergência das estimativas para o que seja a “resposta” correta. Finalmente, o processo é encerrado com base em um critério predefinido de finalização (ou seja, um número de ciclos ou de atingimento do consenso, ou estabilidade de resultados) quando a média ou mediana do ciclo final estabelece o resultado final (Wikipédia, acessado em 20/05/2012 AS 16:07).

No artigo, os autores buscaram identificar a utilização de competência no campo da educação como um componente chave quando se desenha um currículo, numa proposta de ensino, na educação continuada e na avaliação. Competência integrada ou holística liga os atributos gerais (conhecimento, atitudes e habilidades) ao contexto no qual estes atributos serão empregados. A noção de competência é relacional, ela aborda as habilidades do indivíduo e as tarefas que são necessárias numa determinada situação.

A técnica Delphi foi utilizada neste estudo para estabelecer as competências gerais requeridas para o médico e para o enfermeiro que atuam em atenção primária de saúde. O estudo se constituiu primeiramente na parte preparatória, quando foi elaborada uma listagem inicial que servisse de subsídio ao início da aplicação da técnica Delphi, e na parte da identificação das congruências, como preconizada pela técnica Delphi.

Estas respostas foram editadas exatamente como cada um respondeu, gerando assim uma lista de 62 sugestões de competências, muitas das quais eram iguais ou semelhantes.

Após a primeira parte, foi submetido aos mesmos participantes a lista contendo as 62 competências geradas por eles na primeira etapa, os quais podiam identificar suas próprias respostas. Assim, foi solicitado aos participantes que lessem esta lista das competências e que reconsiderassem sua resposta frente aos resultados contidos nela, selecionando a competências. Desta segunda interação resultou outra lista contendo 86 competências, aumentando ainda mais a semelhança e igualdade entre as competências.

As 86 competências identificadas na 2ª parte preparatória, foram compiladas, sintetizadas e categorizadas para evitar duplicação e facilitar a compreensão dos participantes do painel Delphi. A categorização resultou em 8 competências gerais, que compuseram o questionário para a aplicação da técnica Delphi.

Para as 8 competências listadas foi solicitado a cada participante que atribuísse um valor de acordo com sua concordância ao enunciado. A escala utilizada foi a de Likert, cuja pontuação estabelecida foi de 1 a 5 (discorda totalmente – concorda totalmente).

Dos 60 questionários enviados 32 (53%) foram devolvidos. A devolução do questionário foi diferente de acordo com cada categoria profissional, sendo que a devolução foi realizada por 10 (76.92%) dos enfermeiros e por 22 (46,80%) dos médicos. Para análise dos dados foram aplicados testes estatísticos baseados na média, desvio padrão, t-test. Essa análise foi realizada pelo programa estatístico SPSS (Statistical Package for  the Social Sciences).

Foram classificadas as porcentagens das competências em: i) comunicação; ii) orientada à comunidade; iii) trabalho em equipe; iv) habilidade para resolver problemas; v) habilidade educacional; vi) valores profissionais; vii) habilidade de tomar decisões; viii) habilidade em gerência.

Competências, tais como os valores profissionais, trabalho em equipe, comunicação e orientada à comunidade mostraram ter maior concordância entre os profissionais do que as competências como resolução de problemas, habilidade educacionais, tomada de decisão e  habilidade em gerência.

 4 – Questões:

 1 – Até que ponto o resultado obtido pela pesquisa pode sido influenciado pela cultura comungada pelo grupo pesquisado, tendo em vista que todos os participantes fazem parte da mesma instituição?

2 – Qual seria a influencia da monodisciplinaridade no resultado nas conclusões da pesquisa?

3 – A ausência de questões secundaria e sugestão para novas analise poderiam ser uma demonstração de falta de profundidade no escopo da pesquisa?

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